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6.30.2016

black friday



À chegada do séquito de consumidores, os feirantes forjam o melhor sorriso possível nos rostos ansiosos. Não existe falsa simpatia enquanto não conhecemos a fundo o coração das pessoas: é bem mais fácil acreditar que o vendedor sorri porque nos acha miraculosamente belos ou bastante simpáticos, porque lembramos seu pai, sua irmão, ex-namoricos, etc, como se remeter fisicamente a alguém da família ou antigos casos amorosos fosse bom agouro, sabendo-se lá o que cada adulto leva em sua estufada bagagem interior, isto é, sua experiência, o que pode abarcar pais abusivos, relacionamentos incestuosos e rompimentos traumáticos, e não porque está louco para nos enfiar goela abaixo novas necessidades que antes nós não entendíamos como, well, necessárias.

Hoje é dia de faturar e o sorriso falso em questão de tempo deverá ser substituído por uma genuína e expansiva gargalhada de triunfo. Imagine a risada casualmente maligna ecoando pelo infame recinto dos contadores, proporcionando um pequeno entreouvido, daqueles de firmar orelhão em cerca de madeira, das liturgias satânicas do american dream ou, neste caso, de seu irmão caçula, o latin american dream.

Espalhado por tendas na companhia de pequenas plaquinhas indicativas de preços e descontos, dá-se às vistas um inventário considerável de manuais de invocação, grimórios e cramunhões. É a promoção do dia, então o custo-benefício é incomparável. Por motivo de boa vizinhança, nenhum dos feirantes abusa no preço deslealmente baixo, evitando uma reação em cadeia de prejuízos para si e os outros. Ademais, o vilãozinho certamente seria expulso da feira ou teria sua alma maculada entregue a Belzebu num ritual sabático, pois dia útil é dia de batente.

À luz minguante, entram e saem clientes das mais diferentes classes, metade do salário, cinco por cento, que seja. Nossos produtos garantem um futuro confortável. Ai que lindo mãe posso levar, indaga uma angélica garotinha apontando para um boneco de vodu. Incapaz de resistir aos encantos da menininha, a mamãe desperdiça o câmbio para fazer sua vontade. Bacana, mas é sempre preciso ter cautela para não mimar seus filhos. É preciso impor limites ou eles sentam em cima. Morrerá em segredo o propósito deste boneco em específico.

Quando a alvorada se impõe, gloriosa, abrasada e pagã, já não sobraram muitos consumidores. É hora de animadamente desmontar as barracas, encerrar as atividades e voltar pra casa. Parabéns, pessoal, todos lucraram o dobro do mês passado e sem sacrifícios. Risadas. Viva, viva. Hoje vai todo mundo comer bem pra caramba lá em casa.

_gabriel resende santos_

5.06.2016

trilogia do ômi III: comentário sobre o infinito



Um rapaz negro, um homem branco e uma mulher branca de sovacos perfeitamente brancos morreram. O jornal fala do rapaz negro que morreu sugerindo nas entrelinhas que ele mereceu morrer. Em sincera consternação, todavia, pelas outras duas vítimas do mesmo acidente. Um rapaz negro morreu e a televisão fala disso durante um minuto, antes de cortar pros sovacos perfeitamente brancos da atriz branca numa propaganda de perfume caro. Um minuto também. As propagandas de cerveja importada repetem que álcool de qualidade é coisa exclusiva de homens brancos com ternos finos em carros blindados que carregam as atrizes brancas de sovacos perfeitamente brancos no fim do comercial. Um rapaz negro morreu e não vai beber cerveja importada e nem usar o terno fino, o carro importado ou o perfume caro da atriz branca de sovacos perfeitamente brancos. Atores negros surgem esporadicamente, musculosos e simpáticos.

Um rapaz negro nasceu. Nasceu já rapaz, não passou pela infância, adolescência, nem vai chegar à velhice. Um rapaz negro saiu do útero já formado, em seus um metro e setenta de altura raquíticos, matando a própria mãe ao arrancar seu estofo de órgãos junto com o cordão umbilical. O rapaz negro saiu e correu direto pro ponto em que devia morrer, arrastando uma parte da mãe, ciente por instinto de sua durabilidade deteriorada. No caminho ele cruza com garotas negras que gerarão, morrendo no processo, rapazes negros que por sua vez nascerão rapazes e morrerão no mesmo dia. Chega ao seu destino: um carro blindado dirigido por um homem branco de terno fino acompanhado de uma mulher branca de sovacos perfeitamente brancos que o atinge na avenida, pois o motorista perde o controle do carro e, após passar por cima do rapaz negro esmagando sua coluna e seu crânio e espalhando pedaços de cérebro no asfalto desgastado, acerta também um caminhão estacionado provocando uma explosão que incinera as três pessoas envolvidas.

O rapaz negro morreu sem tempo de tomar cerveja importada, ou vê-la, e não teve tempo de se arrepender de ter corrido em direção ao ponto e instante exatos de sua morte em vez de beber cerveja. Seus filhos, todos eles rapazes negros ou garotas negras que por sua vez gerarão outros rapazes e garotas, passarão pelo mesmo círculo porque são rapazes negros condenados a não ter infância ou velhice: um ponto numa linha reta demarca os limites da vida do rapaz, a trajetória do segmento é ínfima. O começo e o fim estão tão próximos quanto o rapaz negro e a mulher negra ficam próximos quando procriam. Seria uma boa memória ou a única, se o rapaz negro tivesse tempo de cultivá-la.

Uma garota negra nasceu. Não conheceu seu pai também rapaz nem sua mãe também garota. Sai do útero com garantia vencida e prontamente concebe uma nova garota negra e um novo rapaz negro. Olha pra trás e vê sua mãe morrendo. Um rapaz negro começa a correr encharcado de sangue arrastando o fio umbilical e o corpo da jovem mãe. Ao contrário do rapaz negro, a garota negra tira um segundo do seu único dia de vida pra chorar um pouco. Um segundo em tempo de inseto é mais do que o suficiente. Ela limpa a lágrima rápida com a mão e já está preparada pro que inarredavelmente sucederá quando o rapaz negro aparecer poucos segundos depois.

O jornal prefere não se estender com histórias. É um veículo que vai direto ao ponto, assim como o veículo do homem branco. Afirma que o rapaz negro morreu como rapazes negros sempre morreram: são rapazes negros. O jornal não explica a morte das garotas negras. O rapaz negro e a garota negra não tiveram tempo de ler o jornal, na verdade nem tiveram tempo para aprender a ler, que todo dia todo mês todo ano é estampado pela mesma manchete apesar da variação de preço. Poderia se afigurar uma importante revelação aos olhos de um homem branco rico atento ao sistema inextricável das coisas. Contudo, a maioria dos homens brancos ricos, eles que nasceram no mesmo dia homens brancos ricos, não liga se estão confinados a uma reta temporal interminável, a um ciclo complexo de paradoxos e doppelgängers. Sabem que os espera em casa um terno fino. Se a televisão estiver certa, o traje chique vai auxiliá-los na prática da conquista das mulheres brancas de sovacos perfeitamente brancos, fora as que eles já têm, irmãs ilícitas, que vão levar na festa assim que elas terminarem o que estão fazendo agora mesmo: dando à luz suas crias incestuosas. Eles não sabem que no universo só existe uma mulher branca de sovacos perfeitamente brancos e que a imortalidade era só uma enganação.




_gabriel resende santos_






imagem: crianças brincando nas ruínas, henri cartier-bresson

4.06.2016

trilogia do ômi II: seu adjetivo preferido



O cara legal espera de pé por alguma coisa ou alguém recostado numa árvore bonita em uma tarde de tempo firme. A árvore bonita combina com o cara legal, já que ambas as criaturas são pacíficas, serenas e bem-apessoadas. O cara legal espia seu celular provavelmente em busca de informações sobre o algo ou alguém que vem ao seu encontro.

O cara legal é um pouco ansioso, sem dúvida, como não poderia deixar de ser a alguém que espera sozinho numa tarde de tempo firme sob a folhagem de uma árvore bonita. Nem tanto a ansiedade de sair dali, mas a ansiedade de finalmente deixar a sombra é que ocupa os discretos vazios da mente aflita do cara legal. Resumindo: caras legais não combinam com sombras, sequer aquelas lançadas por árvores bonitas.

O cara legal tem a síndrome da perna inquieta (mas caras legais dificilmente contraem doenças com manifestações físicas aparentes, caras legais não têm doenças autoimunes), ou seja, o cara legal também está um pouco cansado de permanecer parado à espera de alguém ou algo que pode ou não ter alguma utilidade definitiva na sua vida. O cara legal é utilitário, o que aqui tem outro significado. O de que a utilidade tem valor pro cara legal como o estoicismo pro estoico. O cara legal só gosta daquilo que é útil porque o contrário forçosamente não pode ser legal.

Sabe-se que o cara legal gosta de boa música, de bons livros, de vidas boas, boas comidas, boas pessoas, boas mulheres, boas bundas, boa diversão, sabe-se que o cara legal gosta de bons e boas. O cara legal é profundamente bom. Visceralmente bom. O cara legal fica irritado com a espera e tecla algumas palavras talvez impacientes no seu celular. Esperar não é legal.

Uma vez o cara legal esperou por uma garota em circunstâncias parecidas, também recostado numa árvore bonita. O encontro com a garota foi atravessado de piadas legais e elogios legais e autodescrições legais. O cara legal teve ainda mais certeza de que era legal, uma convicção que certamente não o torna menos legal. Se a garota pensou diferente, nós não ouvimos. E o que a garota tem a dizer não é legalmente legal. É apenas um achismo. Um cara legal está acima de opiniões irrefletidas lançadas a esmo por gente desqualificada. Não que a garota seja desqualificada, nós nem sabemos o que ela disse: mas dependendo do que disse, podemos presumir algumas coisas.

O cara legal não lembra da garota. Todavia o cara legal sempre lembra de ser especialmente legal, como naquele dia em que ele contou uma piada muito legal que fez metade dos amigos rir de chorar. Ou apenas chorar, o cara legal sabe causar reações conflitantes. O cara legal tem o dom do discurso, é articulado, o cara legal é um cara capaz. Cara capaz poderia ser o codinome do cara legal.

Imagine uma legião de caras legais e portanto capazes realizando grandes obras e transformações na sociedade. Seria perfeito se não fosse impossível. Caras legais possuem uma falha natural, talvez até um pouco legal no sentido de 'uau que ironia', uma falha bruta porém romântica, que é o pormenor raramente comentado da inaptidão incontornável de reconhecer um ao outro quando se veem. Um cara legal não sabe o que é legal fora de si mesmo, sua ideia do que é legal esbarra na ideia de ser ele mesmo. O cara precede e legitima o legal. Ele é o legal em si mesmo e todo cara legal que conheça filosofia usará estas mesmas palavras para conceber sua defesa, talvez substituindo o legal por 'gênio', 'intelectual' ou 'poderoso'. Penso, logo sou legal. O cara legal que é em particular muito muito legal prefere usar sinônimos intrincados para variar a terminologia do cara legal, evitando reduzi-lo a um recurso de repetição pouco fluído ou a basear seu discurso na exploração de um adjetivo que já é bastante genérico. O cara legal é sui generis.

O cara legal que espera recostado na árvore bonita e ignora a legião de caras legais que o precedem e sucedem olha novamente para o celular e para os lados, tentando identificar o algo ou alguém que se aproxima. O cara legal é ótimo em improvisos, mas sem uma plateia vê-se obrigado a esperar encostado e mudo. A ansiedade do cara legal dobra de tamanho. Ele se pergunta sem visar pontos de interrogação: Será que o cara legal não é suficientemente legal para essa coisa que demora tanto para chegar, será que o cara legal vai ser deixado a sós com a árvore bonita e sua própria natureza legal. Estas dúvidas não são nem um pouco legais, o cara legal reconhece, mas são razoáveis. Afinal, o que significa para um cara legal descobrir que não é legal. Não que a opinião da coisa de que já não temos certeza que se aproxima pese algo nessa balança, mas o cara legal confronta-se a cada segundo com a própria autoestima relativamente não legal. Não dá pra ser legal se você não se considera legal, o cara legal diz pra si mesmo. O cara legal não está contente com esses questionamentos e começa a ficar furioso e curioso com a demora do algo ou do alguém. Será que outro cara legal, mais legal, surgiu pelo caminho. Um cara legal pode ter obstruído outro cara legal, isso legalmente devia ferir o código de ética. Ou não, nada se pode fazer quando um cara legal é mais legal do que outro. É uma competição tácita e todos os caras legais reconhecem-no em sua caçada pelo que é legal no universo. Açoitar o próprio cérebro com dúvidas nada legais é o primeiro passo para a degeneração, o cara legal bem sabe enquanto o impulso de arremessar o celular longe começa a se pronunciar no cantinho recôndito das vontades mais reprimidas do cara legal. Um cara legal não pode ser legal para sempre, não pode ser legal em paz?

Então, de repente, o cara legal olha pra direita, pois seu instinto é olhar para a direita, e descobre exatamente o que queria. Um sorriso estende-se na cara legal. Um sorriso que alguns chamariam solar e outros noturno porque as pessoas fatalmente enxergam as coisas de jeitos muito distintos, afetadas que são por graus de miopia, hipermetropia e astigmatismo. Diremos apenas que era um sorriso legal e que destarte não pode ser julgado por qualquer um que não seja legal.

O cara legal oculta o celular no bolso, sem ocultar o sorriso, e finalmente deixa a sombra da árvore bonita preparado para um abraço ou uma assinatura ou um estrondo ou um beijo ou um bicho. Sombras não combinam com caras legais.



_gabriel resende santos_









2.29.2016

trilogia do ômi I: nada como uma piada após a outra



É uma peste, com certeza. Parece um bicho, mas é uma peste. Minhas pestes só aparecem de dia. Esse aí não dá nem pra confundir, é uma peste tão óbvia que chego a ter piedade de sua obviedade. Pobre imbecil, nem pra se disfarçar direito, apertar esse passo. Vem andando lenta, torta, trescalando um cheiro horroroso. Pega a arma maria,
já pego joão que isso mais uma peste,
mais um maria não tá fácil,
é não tá fácil mesmo.

Maria me joga a espingarda e eu atiro. No crânio. Aproximo-me pra descobrir o tamanho do monstro. Nossa, essa era uma peste pesada. Devia ser jogador de basquete. Pego uma marreta e quebro o corpo da peste em várias partes. Depois com uma motosserra tiro os pedaços de carne podre e enfio em alguns sacos de lixo reforçados pra mandar rio abaixo. Maria me auxilia no serviço. Tchau peste. Me aparece cada coisa por aqui. Maria mais uma peste,
você tá brincando mais um,
mais um maria mais um,
toma a espingarda.

Toma, peste, toma. Mais um pro saco. Pego uma marreta e quebro o corpo da peste em várias partes. Depois com uma motosserra tiro os pedaços de carne podre e enfio em alguns sacos de lixo reforçados pra mandar rio abaixo. Maria me auxilia no serviço. Tchau peste. Continuam me aparecendo coisas por aqui. Aquele lá não sei se é uma peste mesmo. Tem cara de peste, mas pode não ser. Maria vem cá,
oi joão que é,
aquilo lá é peste,
claro que é,
você tem certeza,
absoluta,
vou atirar hein,
atira ué tá esperando o quê.

Atiro. Caminho temeroso. Maria era uma peste sim, não disse. Maria tinha razão. Uma peste de no máximo um metro e sessenta e cinco. Pego uma marreta e quebro o corpo da peste em várias partes. Depois com uma motosserra tiro os pedaços de carne podre e enfio em alguns sacos de lixo reforçados pra mandar rio abaixo. Maria me auxilia no serviço. Tchau peste. Fico ansioso. Não é uma peste. Mas por que caminha tão lentamente? Anda como as pestes andam. Pesados, cada passo um sacrifício. Fico com medo do que vem lá, melhor chamar Maria. Vem cá maria,
fala joão,
aquilo lá é uma peste,
olha não sei,
não sabe,
pode ser que sim pode ser que não,
e agora,
não sei mesmo nunca fiquei na dúvida,
atiro ou não atiro,
não sei homem,
atiro ou não atiro maria,
você que tem que resolver isso não eu.

Atiro. Com o coração na mão, caminho até a figura estropeada no chão. É uma peste mesmo. Pego uma marreta e quebro o corpo da peste em várias partes. Depois com uma motosserra tiro os pedaços de carne podre e enfio em alguns sacos de lixo reforçados pra mandar rio abaixo. Maria me auxilia no serviço. Tchau peste que nem parecia ser peste. Ouço um burburinho no ouvido direito. Alguém fala de mim? Maria você atira hoje,
eu por que eu,
porque já não sei mais o que é peste e o que não é,
nem eu sei,
olha lá é uma peste ou não é,
claro que é,
então eu já tenho quase certeza que não é,
você tá ficando esclerosado,
 por isso não posso atirar,
eu não vou fazer isso eu nem sei atirar,
eu te ensino você só precisa puxar o gatilho,
ou seja você quer me sujar a consciência se não for uma peste,
ué você é que tem certeza que é uma peste,
não farei isso joão você se vira.

Novamente, atiro no que não acredito que seja uma peste. Chego perto e é uma peste. Pego uma marreta e quebro o corpo da peste em várias partes. Depois com uma motosserra tiro os pedaços de carne podre e enfio em alguns sacos de lixo reforçados pra mandar rio abaixo. Maria me auxilia no serviço. Tchau peste. Leio o bilhete de Maria. Teve que sair pra trazer os suprimentos, logo volta. Devia ter me esperado, é perigoso. É ela que vem lá longe? Não sei. Deve ser, parece uma mulher. Mas vem tão devagar. Maria. Ela não está em casa, é verdade. Entro em casa, pego a arma, saio, aponto. É Maria. É uma peste. Atiro ou não atiro. Se eu não atirar e for uma peste, vou morrer. Há uma distância segura para acertar uma peste. Ele permanece em movimento um tempo depois da morte, ainda que acertemos a cabeça, como a galinha decepada que levou dias (ou seriam semanas? Meses?) para morrer de vez. À espera de um ovo, talvez. Fico em dúvida se atiro ou não atiro. Arrisco minha vida ou a de Maria. E se eu não conseguir matar a peste e ela ficar aqui esperando Maria. Morreremos os dois. Isso não pode acontecer. Sinto um ligeiro estremecimento de medo. Mas também não posso matar Maria. Não posso arriscar. Tenho raiva do escuro. Maria vem chegando mais perto. A peste vem chegando mais perto. Maria. Quem é. É Maria. Maria,
oi joão que cara é essa.

Eu ia reclamar de seu caminhar vagaroso. Reclamar que por motivo de segurança devia se apressar ou acenar quando estivesse vindo, mas atinei que se fizesse isso ela entenderia certamente que eu quase atirei nela, ficaria com medo, fugiria daqui, pra bem longe de mim. Maria é uma mulher mais ressabiada do que parece, é uma sobrevivente. Eu já não sei se me sobrariam forças pra continuar, não sem Maria. Olha achei centenas de sacos pra gente continuar se defendendo da peste,
que ótimo,
você tá calado hoje tá estranho,
não é nada é bobagem minha,
sei bom vamos comer,
sim vamos.

Lá vem o vulto. Atiro. É uma peste. Pego uma marreta e quebro o corpo da peste em várias partes. Depois com uma motosserra tiro os pedaços de carne podre e enfio em alguns sacos de lixo reforçados pra mandar rio abaixo. Maria me auxilia no serviço. Tchau peste.

Atiro. É uma peste. Desta vez acerto as duas pernas. Aproximo-me. Definitivamente é uma peste. “Viva”. Mesmo se arrastando é perigosa. Por isso me mantenho em movimento, rodeando-a. Ela tenta agarrar inutilmente a coisa com sangue mais próxima, ou seja, me agarrar. Me fita com seus olhos cegos, guiada na verdade pelo olfato, o sentido restante. Olho pra trás, Maria me espera com os sacos de lixo reforçados. Eu sorrio, algo que àquela distância ela não deve notar. Volto a olhar a peste. Atiro na sua cabeça, o que não muda nada por um tempo. Continua a se mexer. Espero até que pare. Maria me grita entediada querendo saber o porquê da demora. Fico rodeando a peste enquanto ela faz um esforço patético de perseguição, numa versão lenta e infrutífera de um pique-pega. Permanecemos assim por um tempo, repetindo o mesmo círculo. Até que a peste finalmente desiste. Morre de novo. Uns dez minutos, como eu esperava. Me desculpa, Maria. Coloco a espingarda na boca.



_gabriel resende santos_






imagem: sem título do ensaio "beneath the roses" de gregory crewdson

9.30.2014

Stalking



Colher silenciosamente qualquer ersatz de você. Fotografias. Palavras. Deslocamentos. É o que tenho feito há muito tempo. Por trás dos biombos, de óculos escuros, devoro com os olhos o que fez, com quem esteve, por onde andou. Leio tudo o que escreve, consentindo sobre seu modo  de lidar com as coisas. Aprovo suas opiniões como se fossem as minhas; se eu também as tivesse. Eu não sei ser eu, eu só, eu só sei ser contigo. Então me lembro: nem tudo. Nem tudo eu já aprovei. Houve aquela vez, quando você atualizou aquele status...bem, melhor não lembrar. Passei uma semana chorando, resolvi não sair de casa, não comparecer ao mundo. Por isso não quero mais recordar isso. É bom colocar de volta ao coração apenas o que importa, o que eu quero dotar de significado. Como suas andanças pelo mundo ou pelos arredores. Eu acompanhei cada deambulação de sua viagem à Costa Rica. Os lugares que marcou no Foursquare, as paisagens que postou no Instagram, os novos amigos que adicionou ao Facebook. Aliás, eu coleciono as fotos daquelas suas férias, como se fossem meu próprio álbum. Você parecia tão feliz. Uma delas em especial, um selfie no qual você tem um sorriso de orelha a orelha, eu imprimi e carrego comigo na carteira. Nos dias em que estou triste (triste de doer), contemplo aquela fotografia como a um santinho. É meu escapulário contra a dor de viver. Para os outros momentos, a fim de me dar um presente, vejo todas as outras fotos suas que salvei no smartphone. No meu notebook também tenho imagens, até mesmo as daquela sua conta do Fotolog que você fechou faz muito tempo e eram (na sua ingenuidade?) bem mais ousadas. Bem, essas fotos se prestam a outra coisa, não muito românticas, mas ainda assim cheias de desejo. Acompanhar seu mundo, às escondidas, como um puro e tecnológico amor platônico, tem sido minha razão de viver. É o que me deixa alegre e com forças para levantar da cama. E saber de você estabelece uma comunhão de almas. Sei quando está feliz porque não para de ouvir a mesma música no Last.fm. (Comportamento que eu acabo repetindo quase inconscientemente). Sei quando está estudando porque não vejo você na web. Descobri seu número e endereço na lista telefônica. Vez em quando eu ligo, de telefones públicos diferentes, só para ouvir sua voz e você não ouvir a minha pelo bocal abafado. Às vezes, não me aguentando de saudades do seu cheiro, vou até sua casa e espero sua hora de ir à academia, de passear com o cachorro, de ir à faculdade...Tenho sorte de amar alguém com padrões de comportamento e horários regulares. Nessas pequenas emboscadas, basta atravessar a rua, seguir seu corpo à distância e sentir o rastro de seu perfume. Se eu não soubesse tanto sobre você...mas sei...e sabendo....nem preciso de muitas outras informações para saber onde vai. Pelo perfume que escolhe, tenho ideia de onde pretende ir. E onde vai. Chego a me assustar quando, por um acaso, quase uma catástrofe, seus olhos cruzam com os meus. Será que você se lembra de mim? Já me viu antes? Será que sabe que eu existo? Um dia, quem sabe. Um dia você vai saber. Eu vou contar, ah, eu vou contar.

.: marcio markendorf

6.01.2014

o platonismo pós-moderno

"é minha noiva quem faz isso por mim".

demorou algum tempo. eu sei, eu já sabia que algo havia, mas ainda assim: demorou algum tempo para me recuperar. foi quase como se eu estivesse para desabar no chão, sem ter tropeçado, sem ter perdido a pressão. o frio de um looping de roller coster, sem as mãos. noiva?

não que eu já não soubesse que havia algo. a aliança no anelar da mão direita atestava o óbvio. era inegável que algo havia. e eu repetia que aquele anel era um campo de força que me repelia. (e, paradoxalmente, ainda me atraía). vai ver era vontade de que nada fosse, e fosse para o espaço o laço que aquilo unia.

ainda sabendo, eu me inventava de aventuras. o fato de nunca ter, até então, mencionado nada, nem ninguém, me parecia uma vaga esperança de proteção. vai saber, não? essa profissão deve inspirar muitas fantasias, enganos, tentativa de aproximação. fetiche. mais vale um anel de compromisso nenhum que três séries de verbos de esquiva, três substantivos contra o constrangimento, um objeto tornado indireto, indeterminado e oculto.

eu era um cara apaixonado. eu sou um cara apaixonado. mas de um amor de distâncias. não queria nem beijos nem abraços, só queria não manter vazia minha piscina de afetos. golpe duro, golpe baixo:  você elege alguém para gostar, por puro amor, para não se sentir vazio; então o vazio se torna puro e o amor, uma via crucis de ouro.

eu entendia meu lugar no altar: genuflexo, temeroso do olhar de cima, rezando por atenção como quem pede graças aos santos canonizados. entretanto, isto: contrariando tudo, eu interpretava os gestos mais desinteressados como as mais espontâneas formas de demonstrar afeto. recíproco.

assim, apesar do círculo no dedo...apesar do impulso não carnal do afeto...apesar de saber impossível desde o princípio...eu ainda deixava-me arrastar para o precipício, entorpecido pela fantasia amorosa de nós dois.

e fui flechado por uma flecha que não era de cupido: era a noiva fazendo-me de são sebastião.

depois do tapa da palavra, por hematomas depois, senti aquela sensação duradoura de estampido, aquele tatear da mente no meio do nada, na cegueira de pensamentos mancos, lentos, furtivos.

não era apenas a trilha de um amor impossível, aquele da diferença de classes ou das famílias inimigas, com fim trágico. era a certeza de que todo o amor, qualquer amor seria, para mim, sempre impossível.

e quando ela disse que tinha uma noiva, a catástrofe se fez no coração, e aqui estou eu: à espera de que alguém me tire das ferragens. espero que não demorem e me resgatem, se o diabo quiser, ainda com vida.

.: marcio markendorf









4.16.2014

passional


I.
então ele ouviu justamente aquela música. o ar ficou mais denso, ganhou uma espessura de nuvem, salpicada de uma luz vazada da pequena janela gradeada. fechou devagar os olhos, abriu um sorriso bonito. ele rebobinou os vhs's da mente e exibiu no videocassete da memória, aquele com tv de tubo embutida, a história mais linda e sem fim. da imagem de um só protagonista, viu felipe em cima da bicicleta. era divertido se divertir com ele. rir do jeito que ele dublava as músicas. sorrir das caras engraçadas. gostar de gostar daquele rosto lindo, da voz saborosa lá de cima, vindo para baixo como uma carícia rouca. por isso, era preciso: evitar que os olhos se cruzassem, a óbvia cara de bobo, a bandeira branca. inteiramente branca, desfraldada e ajoelhada. um close-up da cena mostraria duas lágrimas gordas desabando pelo lado esquerdo do rosto, molhando o contorno dos lábios semi-sorridos, diluindo-se em um mar vermelho.
era este o pequeno filme do amor.

II.
'o que você tá fazendo, rodrigo? para, pô!'
'já que não vai por bem...'
'para, caralho, saí de cima de mim! vira essa porra pra lá'

um estampido, um baque surdo.

III.
'é hoje que eu conto pra ele, dora. não aguento mais não'
'você tá louco? o cara é casado e não é gay não'
'cavalo amarrado também pasta'
'e acha que um homem vai assim, ficar contigo, sem mais nem menos, só porque você está apaixonado por ele?
'então vai por mal, dora, vai ter que ser por mal. não aguento mais injúria de amor não'

IV.
'rodrigo? quanto tempo! como andam as coisas contigo? amigo, não nos falamos desde o carnaval'
(...)
'e a academia? tá naquelas aulas de bike?'
(...)
'paixão platônica de novo? por que você não se interessa por alguém que tem chance? não, não, tudo bem, vem aqui e a gente conversa melhor'.

V.
era o primeiro dia dele. rodrigo estava distraído, ajustando o selim, regulando o guidão. foi quando sentiu um leve cheiro amadeirado, de alguém que passou por ele. de soslaio, viu que o cara devia ser o instrutor da aula. rodrigo montou na bicicleta, ajustou os pedais e quando finalmente olhou para frente, foi como ter sido atingido por um desfibrilador.

'hey todo mundo, meu nome é felipe, e felipe quer dizer o amigo dos cavalos, eu não monto em cavalo, nem nunca cheguei perto de um cavalo, de modo que não sei se vale o cavalo de ferro, como são chamados os trens, já que gosto muito e sou meio nostálgico. quem veio a primeira vez e precisar de ajuda, pode me chamar. bora para o aquecimento, aí vai a primeira música. girando solto, pedalando leve, no ritmo, vamos lá!

e rodrigo ouviu: this is the first day of my life, swear i was born in the doorway, i went out in the rain, suddenly everything changed...

um sorriso tímido surgiu naquele rosto de rodrigo bobo.
pela primeira vez.

.: marcio markendorf.



1.23.2014

manual de sobrevivência - 1



1. Acordar com um intruso na casa. Não daqueles tipos de intruso com catalogação científica (me poupo do latim), ou o que daria um ambíguo e excelente poema de sacanagem, mas aquele intruso que não se vê. Nenhuma mitologia o explica. Nada de parasita no intestino, de mosca sobrevoando os sonhos, de lagartixa na fresta da porta: o meu intruso é invisível e radical. Invisível porque realmente não dá pra vê-lo. Nem a olho nu, nem a microscópio. Radical porque me obriga um silêncio que nem eu e minha boca podiam adivinhar. Se pensou em angústia existencial, dor de cabeça, dor de cotovelo, desilusão amorosa etc., pensou errado. Esqueceram de nomear meu intruso, os filósofos nunca tiveram muita paciência com ele. Só fala em emancipação, vingança, sofrimento e caos, teria acompanhamento psiquiátrico não fosse um mero intruso de um mero. Não sei nada de anfitriões e inquilinos, regras de etiqueta me escapam totalmente. Mas toda noite recebo bem meu intruso, pelo menos. Ele elogia meu jantar, minha aparência bronzeada e minhas roupas, mas reclama dos meus antecedentes amorosos e do modo como eu ajeito meus óculos. Não tenho culpa de ser míope, mas o intruso não entende, critica meu ar grave quando faço isso e diz que me torna mais arrogante do que já sou. Espertamente aproveito a brecha e sugiro que ele deixe a casa, se isso o incomoda tanto. Com um sorriso (quer dizer, se você puder atribuir sorrisos a coisas invisíveis, intangíveis e impassíveis como meu intruso) ele retorna ao seu canto da casa, aquele que é só dele e nem eu tenho acesso. Então eu tenho privacidade, longe relativamente do intruso. Até sinto que dessa vez ele possa ter ido pra sempre, suicidando-se do modo mais discreto e asseado possível, como se esperaria dele. Mas eu sei que as coisas não são fáceis e uma hora ou outra ele vai voltar. Precisa voltar e alimentar-se, sim, como o parasita no intestino. Ou como um vampiro, embora não tenha dentes ou charme. Durante muito tempo somente pensar nessa convivência às vezes intratável me afetaria com impulsos aleatórios e autodestrutivos. Pular do segundo andar do prédio ou estapear a careca de um motoqueiro foram experiências mais ou menos bem sucedidas, por exemplo. Essa fase já passou, pernas e braços agradecem. Até porque hoje são compreensíveis os motivos do intruso, por mais que eu continue sem entender por que eu ou por que assim. Também não compreendo por que o intruso é do jeito que é, mas aprendi a aceitar sua presença minúscula e os ecos quase mudos que tomo como sua voz. Sei que não somos amigos, mas sinto algum afeto por ele. Sei que o contrário é impossível. Virou ritual nas últimas semanas esperar o intruso trajado da melhor maneira, com as mãos calmas e música boa no aparelho de som. Até evito mexer demais nos meus óculos quando o assunto está aquele prazer. Sei que um dia vão levá-lo a sério, e ele terá catalogação científica e gente mais chique será obrigada a suportá-lo, mas por enquanto fico bem com esse intruso, aproveitando sua exclusividade incômoda. Agora mesmo espero por ele, com mais paciência do que eu e meus olhos sabem ser capazes, e noto que a noite está ficando mais escura. Não preciso ajeitar meus óculos para perceber e agradeço a ela por ser tão gentil comigo agora.

_gabriel resende santos_

10.21.2013

Viajantes de Hotel

Odeio este meu trabalho. Sempre me enviam para cidades de um interior cada vez mais longe. Não sei por qual razão. Esta atividade também carece de qualquer lógica. Apesar de tudo: faço o que é preciso. Fico dois ou três dias nesses matadouros e depois retorno ao centro da Grande Cidade. Com alguma benção e muita alegria. Voltar ao meu próprio espaço é quase uma ressurreição. Tudo porque estes quartos de hotel barato parecem-se com o lugar dos mortos em trânsito. Standard, Luxo, Super Luxo? Não sei porque inventam essas categorias tolas se o serviço continua de última. Então estou aqui, neste pardieiro master, com alguma melancolia. A televisão de tubo ao menos é colorida. Já estive em lugares que era uma caixeta de 14 polegadas, preto e branco, com uma pequena rachadura. A maior parte dos canais é religioso - o que parece incompreensível - e quase me dá vontade de folhear o novo testamento, de capa azul royal, dos Gideões. Contudo, contrariando a tradição hoteleira, não há listas telefônicas. Dou-me conta disso quando, ao zapear os canais, ouço um pastor dizendo que Jesus venceu a serpente e subiu aos céus no terceiro dia. Qual tipo de sumário bíblico seria este, desconheço. Vontade de ligar para alguém, ouvir alguma outra voz, nem que seja por alguns segundos. Não gosto de conversar. O meu trabalho pede muito isto: o silêncio. Prefiro desligar a televisão e observar o cômodo. É um mantra, uma meditação. Logo em frente a cama há um aviso de latão pintado escrito "proibido fumar"; a dois palmos de distância, em uma dimensão muito menor, um quadro com alguma paisagem vagabunda, destes de lojas de 1,99. Cheguei mais perto para ver o que era. Não poderia ser mais kitsch: uma montanha ao fundo, um cenário de floresta, uma corredeira, uma cabana de palha. Uma das casas dos três porquinhos nos Alpes? É possível. Por curiosidade, tirei o quadrinho da parede, a procura de alguma outra pista de sua origem e, para minha surpresa, o objeto cobre uma porção de parede com a pintura descascada, com três furos e três buchas um pouco aparentes. É o método do interior então. Tenho medo de olhar embaixo de cama e ver se escondem mais alguma coisa embaixo dela. Ao menos a roupa de cama é branca, limpa e tem cheiro de limpo. Em outro lugar que fiquei as toalhas tinham um quê de manchado, de puído, de tecido endurecido. Mas uma curiosa sistemática se mantém: no pequeno e mal planejado armário embutido - ali estão a TV, o frigobar, um cobertor, um edredom e uma desconfortável mesa de trabalho - há um espaço para pendurar roupas. Ali, três cabides pendurados, dois daqueles vagabundos de arame, um azul outro vermelho, e um mais vagabundo ainda, de plástico, de uma cor lilás. Parece recorrente essa falta de padronização de cabides e esta escolha vexatória da qualidade. O assustador é que este não é um hotel de pequeno porte. Médio, talvez. De qualquer forma grande para uma cidade tão pequena e desabitada. Estranhei que, ao chegar de madrugada na recepção, o porteiro ter me perguntando se eu tinha reserva (e ele olhou-me de um jeito como se fosse dizer que não havia vagas), só para depois anunciar que havia muitos quartos livres. E de fato havia. Foi de manhã que eu notei que todos os quartos deste longo corredor, com exceção de um outro além do meu, estão com as portas abertas, sinal claro (e não convencional) de que estão vazios. O porteiro veio comigo até o quarto, trouxe minha mala, apresentou os aposentos - simpatia própria destas cidadezinhas e das famílias de subúrbios bem suburbanos das grandes cidades. Ainda no corredor eu ouvia o ressonar profundo do outro hóspede que está neste mesmo andar, o que me levou a pensar que a noite seria um tormento. Ainda mais porque o ouvi ir ao banheiro, fazer qualquer ablução na pia, cuspir. Não há muito isolamento de som, o que faz isto aqui parecer mais uma pensão barata do que um hotel. Ao menos tentam compensar com um nome (controversamente) mais nobre: Torre Eifel. E a grafia é esta mesma: Eifel. Se os parisienses soubessem, teriam um surto psicótico nos trópicos. Por causa do meu trabalho e de minha personalidade embotada, tendo a ser muito equilibrado, muito embora não possa arredar meu pensamento destes juízos. Mau juízo sem prejuízo, este é o meu lema. E falando nisso, é preciso dizer: o banheiro é bastante razoável. Em outros lugares já vi coisas piores. Desde portas não abrindo completamente porque batiam na borda do vaso sanitário até boxes rachados que inundavam todo o banheiro. O lugar é funcional, tem algum espaço, embora não seja esteticamente bonito. O que mais me incomodou foi o forro de PVC. Durante a noite, em virtude (espero!) de alguma corrente de vento, vinda de algum lugar, as placas faziam barulho. Eram fraternas aos telhados de zinco mal rebitados em dia de vento. Por sorte, pelo cansaço da jornada, dormi logo, sem me incomodar com estes sons - de dentro e de fora. Acabaram de me ligar. É hora. Preciso descer a torre de treliça e ir lá fazer o meu trabalho. O dia está nublado, emburrado, com cara de chuva próxima. Ótimo para o que necessita ser feito.

.: marcio markendorf

10.02.2013

vidinha-cinema-pipoca-de-brígida-janete


e fiquei assim depois que li no meu feed de notícias: joaquim em um relacionamento sério. confesso que automaticamente eu me senti uma vaca holandesa encalhada, talvez uma gordinha simpática como a bridget jones, com uma música de fundo de outra gorda: eu jogada no chão com um pote de sorvete no meio das pernas, um pacote de batata frita em cima do sofá, ouvindo adele e chorando de cara com i heard that you're settled down that you found a girl and you're married now e, provavelmente entre uma colher de sorvete e um punhado de batata, eu ia berrar o all by myself mais dolorido da vida musical, emendando bem pot-pourri com never mind i'll find someone like youuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu. claro que o vizinho de cima, de baixo ou do lado ia mandar eu prender a cadela no cercadinho, que ela uivando desse jeito não dava, ao que eu só iria responder, 'vaiiiiii willy, salte para liberdade, você consegue, sua gorda!', bem me olhando no espelho parecendo um bebê babão de tão lambuzada de comida e imaginando onde foi parar o cheetos de ontem e minha dignidade de hoje. a verdade é que eu embarquei em uma bad e abri o barzinho da sala e fiquei a beber whisky on the rocks, passando para cantoria de back to black, da amiga amy, quando voltei a fuçar no seu face procurando a vadia que você está namorando sério e escrevendo impropérios nas fotos do falecido. eu, na minha infinita capacidade imaginativa, me imaginei igual julia roberts no casamento do melhor amigo dela, tentando impedir o inevitável, tentando dizer para você que era tudo um engano e que devíamos ficar juntos, quando, de repente, estou é como em um pesadelo, apertada em um vestido de baile, sendo humilhada (acidentalmente) na festa pós-casamento. não suportando o happy end alheio e meu final infeliz, eu ia sair de lá como carrie, a estranha, botando fogo em tudo e destruindo essa sua vidinha onde seus sonhos come true, onde você não me come, onde tudo o que você me disse não era true. bem, fica o aviso: se rolar casamento, não me convide.

.: marcio markendorf

1.10.2013

Disse que eu era a pessoa certa


A. Acho melhor a gente dar um tempo.
B. Também acho que vai ser bom a gente conhecer outras pessoas, outras paisagens.
A. O problema não é você, sou eu.
B. Sim, você também é muito especial, acredite, mas não é pra mim.
A. Eu só sei que eu me enganei, não era amor o que eu sentia.
B. É. E eu acabei de sair de um relacionamento.
A. Na verdade... eu já tenho uma pessoa.
B. E eu tenho outra pessoa e a gente só queria se divertir um pouco.
A. O problema é que em você tudo é intenso.
B. O seu problema é que você só quer sexo.
A. Eu quero curtir a minha liberdade um pouco.
B. Eu quero encontrar o amor.
A. Vamos ser amigos.
B. Eu sei que você nunca mais vai me ligar.
A. A gente se esbarra.
B. Espero que só pelas costas.
A. Não diga isso, eu te quero bem.
B. Se me quisesse, não estaria terminando.
A. Eu só quero um tempo.
B. Eu só quero espaço para gente se entender.
A. Não vai dar certo, eu sei.
B. Mal tentamos, nem faz um mês.
A. Você é a pessoa certa, mas na hora errada.
B. Esta conversa está na hora errada com a pessoa certa.
A. Já sei onde isso vai dar.
B. Leu isso no horóscopo?
A. Não. Fiz um teste on-line.
B. E o que deu?
A. Carência.
B. Quais as outras possibilidades?
A. Amor. Paixão.
B. Então não significo nada?
A. Significa. Só que pra outra pessoa.
B. Eu quero você.
A. Mas eu não te quero. Não agora.
B. Acho melhor a gente dar um tempo.
A. É. Talvez conhecer outras pessoas, outras paisagens.

Ad infinitum.

.: marcio markendorf

9.04.2012

saber de cor

eu acho que já estive aqui. tem vezes que eu tenho quase certeza que sim. o lugar me parece familiar, mas tem algo de sinistro que pego com o canto dos olhos. então eu digo a mim mesmo: eu nunca estive aqui. contudo, aparecem lembranças que já nem sei se são ficções. poderiam ser sonhos. será que eu sonho? quisera deus acordar os sonhadores que sonham acordados. já tive muitos pesadelos, dentro e fora do corpo. os sonhos já são mais difíceis de ganharem o lado de fora. acho que os meus nunca ganharam. ou se ganharam, perderam logo a consistência de real, voltando liquefeitos ao mundo dos que dormem, completamente derrotados. eu acho que já estive aqui. eu deveria saber de cor porque estou justamente dentro do meu coração.

                                                  .: marcio markendorf

9.03.2012

Conversa de Bar

"O relógio atrasa tudo.
Atrasa o jogo, a transa, o deboche, a linha, o trabalho, a depressão, os estudos, o sossego, a dúvida, a cautela.
O tempo para o próprio tempo, que atrasa a ele mesmo.
Pode?"

Com um baque no balcão, deixa o copo de cerveja por ali e sai cantarolando um samba.

.: philipe macedo pereira

6.22.2012

pero vaz de caminha (hodierno)

Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças
e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos pelas espáduas, e
suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos,
não tínhamos nenhuma vergonha.
(ai se eu te pego, ai ai se eu te pego)
(delicious)
(delicious)

5.20.2012

amores platônicos em sala de aula


desde que pousei meus olhos em ti já não posso dormir. as noites deixaram de ser tranquilas, tornaram-se fantasias insones que me atacam e me revolvem nos lençóis da cama, no tapete da sala, no parapeito da sacada. não durmo, mas sonho todos os dias.
assim:

luto contra todos os relógios da cidade, apresso meus passos, apresso os carros com o pensamento, tudo, tudo para chegar antes. e primeiro. escolher o lugar na sala. movimentar meu assento para trás do teu, depois aguardar tua entrada, esperar teu cheiro confirmar tua chegada, ver na tua nuca a prova viva da tua temporada diante de mim. então fecho os olhos, suspiro bem fundo, tragando o ar com mais gosto que um fumante, mais vontade que um viciado, só para me preencher desse teu cheiro de mato e alecrim amassado. em seguida, toco teus ombros distraídos de mim, digo um cumprimento qualquer, disfarçando minha vontade de gritar, de gemer, de implorar por um beijo aguado de bocas e bocas de eternos e infinitos amantes.

quando se vira, meus olhos pousam nos teus olhos com doçuras de borboleta. talvez note, talvez não. talvez eu não tenha trazido nas patas e nos cílios polén suficiente para fecundar este olhar. fazer florescer tua florada, fazer do teu olhar minha morada perpétua. e, quem sabe, fazer dos meus sonhos uma abelha-rainha; do teu pólen, a geleia real dos meus dias.

mal a aula começa, fico deambulando pela tua nuca, notando a penugem do pescoço, a espessura do teu dorso. fico ensaiando os dedos bem próximos do teu cabelo, fingindo carícias no ar, enroscando caracois nos nós dos meus dedos. imagino teu sono, tua vontade de dormir no meu colo. penetro os dedos bem fundo, toco o couro cabeludo, torno mais íntimo meu apelo. coro, quase choro.

pergunto qualquer coisa, finjo que me perdi na matéria. invento as mais ingênuas dificuldades para que me explique de novo, para que renove o ar com teu hálito, aquele que prenuncia o gosto das gengivas vermelhas, a sede dos corações em chamas na garganta.

e quanto mais o dia se aproxima do fim, mais quero desacelerar o tempo, vencer os relógios e atrasá-los por uma duração que nem sei. tudo para impedi-los de tomar para si as tardes inteiras e devolver em troca as longas noites de vigília. então, a despeito de toda luta contra o fuso horário, chega aquela parte do dia em que vejo tuas costas partindo, teu corpo dobrando a esquina, minha paixão desaguando em dois ou três dias de dilúvio.


11.13.2011

em defesa de eva




Era uma vez o homem Adão.
O homem Adão que sempre foi homem.
O homem Adão que nunca foi menino, e que nunca foi velho também.
O homem Adão sempre foi Adão, desde que existiu.
O homem Adão existiu antes de nascer.
O homem Adão existiu para todo um passado e todo um futuro.
O homem Adão era o presente.
O homem Adão nunca precisou viver, mas vive mesmo assim.
O homem Adão não pediu para respirar.
O homem Adão não pediu para andar.
O homem Adão não pediu as árvores e as florestas.
O homem Adão não pediu as lagoas.
O homem Adão não pediu um emprego de repartição pública.
O homem Adão obteve o que não pretendia.
O homem Adão que existia,
O homem Adão que respirava,
O homem Adão que andava e nascia era o mesmo.
O homem Adão que assinava os contracheques.
O homem Adão que de fato crescia: pra cima e pra frente.
O homem Adão que descobriu o prazer dos industrializados.
O homem Adão que sacrificou a saúde de seus  dentes.
O homem Adão de queijo minas e danoninho.

O homem Adão não sentia falta de nada.
O homem Adão era feliz com sua televisão de plasma.
O homem Adão era feliz com seu player de dvd e seu sofá-cama.

Então o Drama.

O homem Adão descobriu um entrave em sua vida despreocupada.
O entrave dos entraves: o Entrave.
O homem Adão percebeu que não havia ninguém.
Ninguém para lhe trazer a cerveja em dias de jogo.
O homem Adão também notou que ninguém mais lhe invejava.
O homem Adão tinha necessidades que ainda nem sabia que tinha.
O homem Adão precisava de uma empregada.

O homem Adão pediu insistentemente.
O homem Adão pediu como se vidas estivessem em jogo.
O homem Adão não era dono dessas vidas.

O homem Adão, depois de tanta teimosia, ganhou a Mulher.
O homem Adão era feliz:
O homem Adão agora não precisava interromper jogos importantes.

A Mulher foi bem satisfatória.
O campeonato estava duro e cada detalhe faria a diferença.
O homem Adão, no entanto, viu que o tempo passava.
O homem Adão viu que o campeonato acabava.
O homem Adão viu que, apesar da cerveja, não se sentia mais feliz.
A Mulher também não.
A Mulher que era mais sensível,
A Mulher que era mais bonita,
A Mulher que era mais inteligente que o homem Adão.
A Mulher condenada à impassibilidade.
A Mulher testemunha do crescimento frontal do homem Adão.
A Mulher que não aguentava mais.

A Mulher se resolveu.
A Mulher afrontou o barrigudo Adão.
A Mulher se libertou de sua mão de gorila.
A Mulher procurou, procurou, procurou e procurou.
A Mulher inabalável em sua jornada espiritual.
A Mulher conquistou o que tanto buscara: uma identidade.
A Mulher marginalizada descobrira um sentido místico filosófico transcendental para sua infame escravidão.
A Mulher havia criado a noção pioneira de responsabilidade.
A Mulher já entendia que seus atos presentes repercutiriam no futuro.
A Mulher sabia o que fazia.
A Mulher sabia quem era.



Sexo e controle remoto multifuncional.

O homem Adão também satisfez-se com suas próprias jornadas e descobertas. 


.:gabriel resende santos

7.27.2011

Os Vigilantes do Peso



No futuro, o Estado Mundial será dominado por uma nova ordem fascista conhecida por Os Vigilantes do Peso. Nesse tempo não será fácil ser um rebelde do corpo porque os agentes do governo estarão infiltrados em todos os setores. A própria população, sob o efeito clônico da educação estatal, ocupará o papel de sentinela, tarefa na qual caberá a cada um vigiar a todos. Os cidadãos dessa sociedade viverão sob o regime marcial dos pontos e das cotas alimentares, sofrendo para manter o equilíbrio da balança da comunidade global. Acaso algum indivíduo oscile em seu índice de massa corporal será abordado pelos policiais secretos com a seguinte saudação-ordem de prisão: "Quanto tempo! Como você engordou/emagreceu". O negligente capturado será encaminhado para reuniões de grupos de tortura e deverá regular sua dieta com o sistema ancestral do ábaco. Em caso de reincidência no desvio de conduta, o prisioneiro sofrerá a pena da intervenção cirúrgica sem anestesia... to be continued.

.:marcio markendorf

4.25.2011

procura-se cachorro perdido

Homenagem aos ufscães

Aquele é um homem curioso. Não saberia dizer a primeira vez que eu o vi, mas tenho certeza de que já nos encontramos aqui, neste mesmo ponto. Já nos cruzamos uma vez e notei qualquer coisa em seu olhar que tinha algo de cumplicidade. Como frequentemente é rápido o movimento das ruas, nem sei se ele chegou a me dizer algo. Também não importa. O que importa é o homem.

Ele tem lá sua pequena obsessão. Caminha pelas ruas em busca de cartazes de animais desaparecidos. Vasculha os postes, os pontos de ônibus, as paredes, os tapumes de obras. Quando encontra um, olha bem para as fotografias, guarda a fisionomia do bicho, o nome, a raça, a cor. Invariavelmente anota os nomes dos donos e os telefones de contato. Para ele não interessam as recompensas em dinheiro, pois o que poderia dar mais prazer a esse sujeito é o gesto de devolver um cachorro desaparecido. Não sabem como lhe dói o coração os cartazes nos quais consta "criança muito doente", sintoma claro de quem é apegada demais ao cãozinho. Quando lê isso, fica tão triste que quase chora e, imagino eu, que seu dia termina de um jeito sombrio e muito penitente. Lembrava de qualquer cão distante que já teve, talvez.

Quando vê cachorros pela rua, com coleira ou sem, fica tão ansioso em perdê-los de vista que começa a chamá-los por todos os nomes dos desaparecidos que recorda: Fifi, Lulu, Roque, Demolidor, Kenzo, Ares, Nemo, Chiclete. Se o cachorro vai desaparecendo, sem dar importância alguma aos chamados, ele apela para o trivial: Totó, Rex, Snoopy, Bidu, Laica, Lessie. Ele só não gosta de chamar animal por nome de homem, porque, em sua opinião, nome de gente é de gente, de bicho é de bicho. Por concluir que o nome precisa fazer valer a personalidade do cão, ficou injuriado quando soube que um vizinho nomeou o cão de "não sei". Nem creio que seja nome de bicho, é mais deboche de adolescente mimado.

Se um cão vem para o lado dele todo serelepe, todo se querendo, logo vê que não é cão perdido coisa nenhuma, e daí não dá muita atenção. Ele busca o cão-burguês, o cão de casa própria. Vira-lata não consta em sua lista de boas ações. Tem até lógica: iria entregá-los a quem? Ele mesmo não tem nem espaço em seu apartamento para cuidá-los. Sua própria casa seria só, por força da circunstância, uma morada provisória até o contato com o dono, caso encontrasse algum. Mas, até hoje, pelo que eu saiba, ainda não satisfez seu desejo.

Talvez ele não saiba que até o cão-burguês, o cão de raça, casa e comida pronta aspira por um pouco de liberdade. Libertação, anarquia, vida mambembe. Ser de todos e de ninguém, morar em todos os lugares e em nenhum. Lutar contra o sentido doméstico de sua natureza e vagar, pela selva de pedra, como um animal selvagem. Há um verdadeiro gozo nisso, a despeito da fome ou do frio que um cão possa sofrer.

Nada parece tão delicioso do que se prostrar no meio da calçada, dormindo, como um imperador, atrapalhando os pedestres e evocando, muitas vezes, aquela inveja do tipo: 'vida boa tem aquele ali, ó, deitado, que não tem preocupação com contas para pagar'. Um cão também é cheio de preocupações, mas quanto àquilo que lhe cabe como um cão. E são muitas, fique sabendo.

Eu, de minha parte, prefiro assim, a viralatice, o ladrar de ataque para as motocicletas, bicicletas e as tobatas. Prefiro a ração e o resto de comida que me trazem, os carinhos múltiplos e de interesse momentâneo. Prefiro o urinar onde quero, sem hora de passeio e cocô embalado no saquinho plástico. Gosto de fazer meu percurso, de deambular sem rumo, sem que me digam 'sou teu dono'. Eu gosto é mesmo deste gosto de ser um cão da multidão. Da próxima vez, quem sabe, eu atenda ao chamado dele, só para ver aonde seu sorriso vai dar.

.: escrito por: marcio markendorf

4.12.2011

A noite dos navios-fantasma


Uma noite todos os navios naufragados levantaram-se do fundo do oceano, e singraram como navios-inferno à procura dos portos nos quais nunca puderam chegar. Ao encontrá-los depois de tanto tempo, tão mudados e tão outros, não reconheceram neles nenhum só rosto daqueles que era esperado que os esperassem. Então, de tristeza, lançaram-se ao cais com tamanha fúria, somente para soçobrar as lembranças que também não podiam mais voltar. Os navios-inferno tornaram a ser navios-esquife. A espuma que se formou depois, disseram alguns, nasceu do choro dos viajantes mortos, sepultados pela segunda vez no tumultuoso túmulo das águas.

.:escrito por: marcio markendorf

3.31.2011

roteiro


Tinha lido em algum lugar que os sonhos fazem mal para o estômago. Deixei de dormir. Enquanto afundei no meu não-sono, faria alguma coisa além de atender as chamadas dos babacas (por que eu fingi que era amigo desse pessoal?) e me entupir de biscoito. Nessas horas os filmes de ação que a TV a cabo transmitia ficavam menos interessantes.

Agentes federais enfrentando os comunas, lutadores de kung-fu recitando provérbios quase bíblicos, pederastas robóticos brincando de faroeste. E eu sem dormir. Imagine se um alienígena totalmente chapado surgisse na janela de casa e me visse. Ficaria sem dormir? O alien ficaria sem dormir? Estava tudo fora de sintonia. Assim como a TV a cabo.

Com medo dos tiros e debaixo da mesinha de canto da sala: passava um faroeste. Preso ali até acabar. O sol árido desses filmes me incentivou  a comprar um ar condicionado. O que fiz em seguida. Não funcionava. A cada filme ambientado nos desertos, sertões, rios de janeiros, entusiasmava-me a ponto de ficar febril.

Preciso de um médico.

Fui. Na fila de espera, minhas olheiras e minha barriga afastavam qualquer espécie humana e não-humana. Eu via com pesar nos olhos aquelas meninas umas mais bonitas que a outras, com seus namorados sarados de cabelo liso, felizes e compensadas, ao passo que... O que eu tinha? Talvez a moça bonita chamada Angela, ou a vizinha anônima e descerebrada que brinca de seduzir, ou talvez ninguém. Como vou saber, se eu sequer sei o que o médico diz: alguma coisa que alguém já veio me sussurrar nos ouvidos, dois dias seguidos.

Três.

Quatro.

Era Dostoiévski me passando receitas?
"Você vai ficar toda esta semana tomando dois comprimidos por dia, um na parte da manhã e outro na da noite. Depois que seguir o tratamento direitinho, pode se matar".

Se eu de fato fosse me matar, como o doutor Dostói previu, era preciso preparar o testamento e me despedir de Angela. Mas ela não me visitava fazia duas semanas. Já suava frio, dedos frios, com medo de morrer sem a despedida. Numa terça à noite ela apareceu.

Pedi desculpas. Motivei a pobre moça a seguir em frente. O consolo clichê dos fins de relacionamento. Ela me olhou cheia de ternura, mais com pena do que com raiva (Goodbye, Jorge). Virou-se e antes de seguir em frente: "Parece que nós sempre gastamos a melhor parte de nosso tempo dizendo adeus". Deus, nunca vou esquecer disso.

Mas esqueci.

Conheci uma garota de cabelo laranja (ou azul?) chamada Clementine. As coisas estão indo bem, mas estou um pouco confuso. Não consigo manter um relacionamento por mais de uma hora e trinta e sete minutos. Talvez seja um problema. E qual é o problema? Qual?

Qual...?

.:gabriel resende santos