Terça-feira, Dezembro 15

crônicas-relâmpago da vida moderna


o típico sujeito sonhador que já desistiu das coisas do amor

mora em um apartamento pequeno

come comida congelada

e mora com um cão de companhia

ruminando a atípica vida de quem já morreu por dentro.


.:marcio markendorf

imagem: dinamismo de um cão na coleira, giacomo balla, 1912.







Quinta-feira, Dezembro 10

corça


ela tinha orelhas de abano. enormes. sorte que o cabelo escondia, sorte que mudou o corte de cabelo para esconder as orelhas. caso não fosse assim, seria uma corça no meio do mato, as orelhinhas em pé ao menor som estranho. ela era feia, mas vestia-se com apuro, de um modo que parecia bonita. um dia discutimos por coisa boba. de raiva, por pura maldade, gritei bem alto – ‘cala boca, maria orelhinha’ – e fiz com as mãos duas conchas nos ouvidos só para evocar a imagem de dumbo, o elefantinho. vi os olhos dela injetados de ódio, vi a pele tremer, o pé tremer, tremer o apartamento. tive que me segurar para não cair no chão com o terremoto que minha maldade provocara. ela entrou no quarto batendo a porta. passou dois dias enfiada no cômodo, em silêncio. talvez três dias. não a vi sair por nada. para ir ao banheiro, para beber água, comer. nada. comecei a temer o pior, só não tinha coragem de enfrentar o que fosse. sabia que estava viva, pois volta ou outra ouvia um som, um arrumar de cama, um derrubar alguma coisa no chão. comecei a não dormir. eu acho que há um mês ela não saía do quarto. quem sabe, três. quando dei por mim, há um ano não a via mais. então eu não dormia direito, rangia os dentes todas as noites, acordava de madrugada, passava o dia no trabalho insone, vegetando, pescando um mar de peixes pesados. tinha pesadelos: sonhava com orelhas enormes me atacando; orelhas de salto alto; orelhas de peruca; orelhas de fuzil e farda. há dez anos eu via aquela porta fechada, aquele silêncio, aquela culpa projetando uma sombra gigantesca pelo chão. hoje, preciso dizer, preciso que todos saibam: há dez anos e um dia eu sou uma orelha.

.:marcio markendorf

imagem: óbvia  humor: terrível   saco: zero.

Segunda-feira, Dezembro 7

lendo avatar

a verdade está na
tomada
na decisão
tomada
tomara que esta seja a
tomada
tomada como certa


.: oberDan Piantino
( leitura poética do avatar usado no mundo virtual)

Terça-feira, Novembro 24

c-ouro-ou-t- ro-t-ouro

guardo-a no casaco de couro aguardo-a no toque do outro a resposta o calor dissolução resguardo-me do contato sob a pele da pele do touro enquanto pego fogo tenho alguma proteção ainda não do outro não alcanço a mão escondida no bolso pulso em gestação
resguardo-me do toque no toque do touro
(ponto)

c-ouro - ou-t- ro - t-ouro

.: oberDan Piantino
poema da série superfícies permeáveis - exercício poético de imersão espacial na superfície da linguagem. Desdobramento de conversa com Mcris-Ariadne.

Domingo, Novembro 15

os mortos prováveis


é bem provável que estejam mortos. provável, também, que isso seja apenas um desejo meu. uma fantasia, um sonho. folheei rapidamente os cadernos policiais à procura de notícias. há dois dias não voltam. não que eu esteja preocupado. por dois dias tive a casa apenas para mim, o que me parece um alívio. ao menor som de retorno, o portão abrindo, os passos na escada, aquela risada forçada, eu cerceava minha liberdade de novo no quarto, talvez como se eu mesmo não houvesse saído dali por dois dias. se o alarme era falso, deixava outra vez a porta aberta, o vento e o corredor apenas para mim. o ar pesado quando estão em casa é de sufocar, por isso é melhor arejar os cômodos o quanto puder antes que voltem. se voltarem. é bem provável e possível que estejam mortos. bem provável que eu queira que estejam. imagino os corpos esmagados, o ferro retorcido, a última convulsão. precisa ser desastre de carro, outra coisa não pode ser. já acontecera antes, uma derrapagem e um descuido. gostam de dirigir perigosamente. por isso só permito o corpo imaginar o ataúde de um automóvel. assisti a três filmes seguidos de noite. não me preocupei com o som, com o lanche às três da madrugada, com o banho demorado antes de dormir. também não me preocupava se o telefone tocasse. até queria ouvir uma ligação séria, solene, pesarosa. mas o que mais me deixava aflito não seria a confirmação do que eu suspeitava, era como fingir um espanto, uma tristeza, um qualquer coisa, sobretudo agora. não nos falávamos. e ainda assim, essa conexão de almas. talvez da minha apenas. eu. por isso não nos falávamos. o eu só se comunica com o tu quando existe outra pessoa. não nos falávamos havia mais de dois, três meses. é bem provável e possível que já estivessem mortos. é possível que eu esteja negando e seja tudo mentira: o carro, o acidente, os corpos esmagados. ouço um barulho na porta. acho que eles chegaram. de imediato sinto um cheiro de morte. é bem possível e provável que não saibam, que tudo tenha sido muito rápido. eu acho que os olho e os ouço, sem qualquer espanto. é bem possível e bem provável que seja espiritismo, que estejam de fato mortos. (fecho a porta e faço-me de morto em meu quarto).


.:marcio markendorf
imagem: five deaths eleven times in orange, andy warhol.
este conto faz apologia aos benefícios de morar sozinho.

Quarta-feira, Novembro 11

Ele


tinha apenas quinze anos e já não conseguia enxergar.
o caso era uma desgraça para a família.
não havia outra saída.
mamãe mandou cortar a franja.

então ele passou a tarde toda chorando, ouvindo rock romântico e sentado ao lado de uma faca de serrinha.
.:marcio markendorf

Segunda-feira, Outubro 26

amante3x4

... as vezes o estar junto é mais forte que o horário,
qualquer horário... teria você uma amante? me custa pensar...
é que o desejo neste jogo, compõe uma tríade com o conflito e a culpa,
neste caso, o que seria feito dessa sua agenda linda?
.
ciúme. uma amiga ciumenta te rouba os sonhos quando com ela
você economiza seus pensamentos, por isso fria!
percebe? já somos quatro...
.: bruna mansani [artista-plástica que não sabe que seus recados/repostas/poemas no orkut estão sendo lançados em la rueda de la escritura].


se somos quatro, de quatro ela espera por mim. tenho uma amante submissa à traição, é com tração nas quatro pernas que me leva à morfeus e à sua.
.
já o desejo, ameaça aquela outra, preenchida por ele. aquela em que assino tarefas é aquela preenchida pelo ordinário, agenda de capa azul. Minha boa relação com a (não dita) esposa faz da amante um prêmio.
.
não há jogo, apenas me jogo à aventura de compor versos à sua amante, aquela que você me mostrou em sonhos despertos.
.
Agora aprendo a amar a minha, na poética com que você ama a sua...
.: oberDan piantino [artista gráfico - se divertindo com a brincadeira espontânea que surgiu a partir do simples comentário de Bruna sobre sua ----. feliz de ter aceitado o convite invisível de responder o primeiro recado.


[bruna quis achar uma nome para aquela que a chama no final das noites - oberDan agora quer uma foto 3x4 de sua nova paixão platônica].

Sábado, Outubro 24

nossa amante

.. como todo bom amante,
ela é infinitamente sedutora.
me acalenta tanto...
e dá margem à melhor realidade de todas...
que é aquela que eu sonho.

te levar comigo seria tornar você quase tão submisso quanto minha amante...
e se assim for, talvez já até estiveste lá, só que não sabe...

.: bruna mansani
(em resposta/complemento ao recado/resposta/desdobramento que escrevi).


esqueceu do formato do meu dorso.
já não tem lembrança do meu peso.
como posso ainda mantê-la ao lado e fria?
minha amante sabe que escrevo sobre a sua.

debaixo de mochilas, edredom, camisetas,
colcha, travesseiro e fronha,
minha amante se pergunta o que tanto escrevo.
de manhã, acordo sem lembrar de qualquer sonho.

.: oberDan piantino (em resposta/complemento ao recado
/resposta/complemento que recebi).


[bruna quis achar uma nome para aquela que a chama no final das noites - oberDan agora quer uma beirada dessa amante - para três, com vista para o mar - quer em seu delírio poético - bruna responde em uma ação que se iniciou na conversa e na fala - do querer escrever e ser lido nasce a escrita espontânea, simples movimento daquilo que sabe fazer da distância, contato].

Quinta-feira, Outubro 22

minha amante

me deseja,
mas não me tem,
só as vezes,
quando eu posso e quero
o que não significa que não goste dela
.: bruna mansani (em recado no orkut).


se viajo,
se me jogo na amante de outros
ela não se importa
amante
ela sabe que é minha

e ao me espreguiçar sobre ela de manhã
sei que sou toda dela
.: oberDan piantino (em resposta/complemento ao recado).


[bruna quis achar uma nome para aquela que a chama no final das noites - oberDan agora quer uma beirada dessa amante - para três, com vista para o mar].

Sábado, Outubro 17

a historia secreta da outra historia infame

certa manhã,
depois de acordar de sonhos inquietos,
margot viu-se transformada em uma barata de 60 anos*.

começou a tomar gingko biloba.

.:marcio markendorf
para a natureza desta historia você pode assinalar:
a) microconto da série de histórias infames.
b) literatura de cunho besta.
c) por que o autor não se mata?
d) um pé de couve pode chegar ao teto de uma casa residencial, desde que bem tratado.

deixando claro que a escolha desta ou daquela alternativa não alterará em nada o curso desta história [vide caio fernando abreu, a verdadeira historia de sally can dance and the kids ou a verdadeira estoria]

*obviamente a referência aqui é a música da cultura universal, uma barata chamada kafka, de inimigos do rei, da qual transcrevo um trecho:

Encontrei uma barata na cozinha
Eu olhei prá ela
Ela olhou prá mim
Ofereci a ela
Um pedaço de pudim
O curioso foi que ela...
Ela disse: Sim!Vem cá ficar comigo


neste texto o escritor invisível passa a fazer uso das poucas informações que coleta do leitor [também invisível] e instaura um jogo literário minimamente interativo [e debochado].