2.19.2012

a sátira mais longa que tenho



inspiro


                            
o       oxi
       
gênio
                      dentro de cada tertúlia

                                  mal
                                  icioso  

           da

epi

                derme

                        {([}

          -leia no
           espaço chiaroescuro -

nas colchas de elétron

     en

quant   o     a                       dentro da vírgula ,,,,
                                                         tanta coisa fingindo
                                                       que eu podia até conversar 
                                                       gosta de marianne moore? 
 quan                                           dentro do fracasso inevitável
        tum *

      guardo[          will       gui          sté        gê

na m
esma frequ         (refe.e.rência?)
                                                                ência
                                                                 n

altura                            jogue os dados no &
              e
mente           o                                      existe uma dor - cummings ou não

           semp

it

          ermo

                                           um objeto-poema pede sua chave


expiro.
                                                         o poema se pontua

.:gabriel resende santos


Pescados



Jorge Pescados: reciclando detritos para melhor lhe atender.
Peixes são vendidos a cada quinze dias.



.: philipe macedo pereira

2.18.2012

Óh fitalmo.


eu sou do tempo que a gente ia no oculista. e eu usava óculos redondo, armação de tartaruguinha, cinco e meio no direito e seis no esquerdo. miopia da braba! ceguinho! quatro-olhos! mil-olhos! para piorar, além de uma cara do inferno, ainda era obrigado a usar aqueles cordãozinhos que vovós têm nos óculos de descanso.

como revanche, fiz cirurgia. outras lembranças traumáticas. os olhos, com anestesia local, vendo tudo: o laser queimando o globo aberto feito uma tampa de laranja. e o cheiro de carne queimada....devia ser de napalm pela manhã...mas só tinha cheiro de vitória porque eu ia jogar aqueles óculos malditos pela janela depois.

a cara...essa subiu um degrau: de inferno foi para a de purgatório.

bem, ontem eu fui ao oftalmologista. nome comprido. pior é o diminutivo: oftalmo. faz me lembrar de aftas doloridas dentro e uma cave bucal. digressões à parte, precisei fazer uma revisão. estou com um efeito residual - um retorno da miopia - de pouco mais de um grau e meio. já ando com dificuldades de reconhecer as pessoas na rua, de ler as placas, de ver os contornos.

lembro do sofrimento que foi ver biutiful no cinema. sem os óculos, esquecidos no carro. praticamente tive que fazer um curso de leitura labial multilingual. era a nova experiência do cinema mudo. puxei da memória todo o livro o corpo fala. fiquei só no visual. para minha humilhação completa, precisei voltar ao cinema, ver o filme todo sozinho para dar minha opinião aos amigos (claro, da primeira vez, fingi intelectualismo, que estava ruminando a história, que diria o que eu achava depois, que eu concordava em parte com tudo que haviam dito, que era melhor eu ir logo para casa cuidar da cachorra).

okay. voltando ao aftalmo: chegou lá pelas tantas e ele sacou um livro que mais parecia uma bíblia e mandou eu ficar lendo os números que apareciam nas páginas. antes de responder qualquer coisa, eu olhei bem para a roupa que eu estava usando e pensei comigo mesmo: 'é possível que até hoje o meu mundo de cores tenha sido uma farsa visual'?. contei quantas cores diferentes eu via na minha camiseta pólo. depois... li os números como lia salmos e rezava. pelo menos dessa, escapei.

180 reais de consulta depois, peço à linda recepcionista uma nota fiscal. ao bater os olhos na forma de pagamento não vejo um "ávista"?

é. deus dá aos homens a cegueira que merece.

.: marcio markendorf




2.12.2012

O Duelo


O duelo havia sido marcado para as três da tarde.
O motivo do conflito ninguém sabia, mas todos queriam ver.
Um mês antes deu-se início aos preparativos.
Diariamente os jornais locais tratavam do acontecimento da década.
Resolveram até cobrar entradas, a preço de final de campeonato de futebol.
Na noite anterior ao confronto, os oponentes se encontraram em um bar.
Deveriam sentir raiva, mas já não sabiam o motivo da briga.
Se abraçaram então. Selaram as pazes.
Mas o espetáculo não poderia ser cancelado em função de uma simples reconciliação.
Por respeito, um matou ao outro.

.: philipe macedo pereira

2.10.2012

o cais de cascavel


um prefeito lunático decidiu mudar o nome da cidade de cascavel para são joão dos portos. mandou construir decks, piers, portos e encouraçados para cobrir a cidade. lá, não passava nenhum rio. mas os turistam iam pescar cobras nas proas dos navios.

.: marcio markendorf
imagem: still de o encouraçado potemkim, sergei eisenstein, 1925.

1.25.2012

as caixas



cêaí
sentado em lynch

treinando-se em malabarismos
por plongées e travellings
que introduzem sem apresentação
sem semi[círculo] ou odessa nenhuma –

eixando-me os eixos technicolor
apertando play.pause.play.stop......play/ F5.F6.F7.F15

02:10 de filme – quantos rolos
ninguém conta na conta? one-two-three
explica para o poeta essa sutileza, Mister 2:35
inda trabalha o benévolo ancião Mister Celulose
ou seu alquebrado hd de 30 gigabytes.

cêaí
sentado em haneke

olvidando as estripulias do bem
- que louvar a carnificina
crítica -
não sem cortina
você resistiu a friedrich a jacques
a roland a giordano a sigmund
ao nada como substância
mas o player de dêvêdê e as tecnologias
o computador da moda e suas 19''
as conspirações as consubstâncias e
 as solidões eufóricas:
então você fica aí - cêaí -
as ancas marcadas por braços/
cordas invisíveis – hipnóticos -
sentado na tua rubrica

cêaí
sentado em kubrick

.:gabriel resende santos

1.15.2012

Conceito









"Mundo louco" era a expressão favorita de seu pai para designar qualquer ato, por mais ínfimo que fosse, naquele pedaço de fim de mundo.

Um carro veloz ao fim da noite, garotos quebrando uma vidraça durante aquela partida de futebol, a missa repleta de bancos vazios, tudo era, a seu ver, contribuinte da insanidade no mundo.




Contudo, não estranhou o dia em que, ao abrir a porta do quarto de seu único filho, ao invés de um homem havia uma moça, que o chamava de pai.












.: philipe macedo pereira

1.08.2012

conVersando








orgulho                  {não}                                 recente      :




b l a k e apareceu

& me apeteceu dizendo       :

look meus parabéns

pelo que você vem fazendo

ocultamente

                                         não era a r n a u t
                                         não era a r t a u d

                                         mas obrigado
                                         
                                         tentei responder

                                         timidamente

                                         pelos elogios plásticos

                    "                destalgaravia tudo me parece

                                         bem mais evidente                "


isto em que

b l a k e perde

k  &

e

mergulhando regurgito

abaixo

rimas de a com A

infinitamente                                 ...





        {no}                         ...h o                    ( rtcnt )





.:gabriel resende santos



1.05.2012

O Rebento



E aquele que tinha tudo pra ser logo engolido pelo mundo foi o que mais se afastou.
Conseguiu a sua liberdade. A emancipação do sistema.
(Por outro lado, a liberdade hoje em dia é falsa. Ninguém é realmente livre e a emancipação só vem se você pagar uma boa quantia, em dinheiro por favor. Até o dia que puder, depois disso você é engaiolado. Por exemplo, quando acordo escuto muita gente piando “me tira daqui!” mas não posso fazer qualquer coisa. Lá pelas oito da manhã me acostumo e não escuto mais nada.)
E os outros apenas seguiram o fluxo.
Nadar em rota contrária cansa demais os braços.
Mas de um jeito ou de outro você se afoga.


.: philipe macedo pereira

.: imagem de: Sigfried and the Rhine Maidens, de Albert Pinkham Ryder

11.25.2011

o colecionador de memórias


As memórias não estão completas. Há sempre uma trajetória entre o ponto A e o ponto B que escapa. As linhas que os unem desapareceram, o passado sucumbiu com elas. Então como recuperar o que não já é mais uma sequência temporal coerente? Retas ou curvas, as linhas não fazem mais que uma ausência silenciosa e perturbadora. E ao faltar o objeto, falta-me a calma, instala-se o ciúme. Colocar em ordem as histórias de vida é um projeto de posse, de fundar impérios com base em uma satisfação fetichista. Perder um objeto ao longo do caminho é, pois, um modo de fragmentar-se enquanto colecionador. Ao escapar-me o objeto de paixão, também eu permaneço ignorado. Ou ignorante. Encontrar ao Outro é encontrar-se a Si Mesmo.

Talvez a esperança de reaver as peças que faltam, estabelecendo a sucessão ininterrupta, mantenha-me sempre alerta ao desejo de continuar. Quero devorar, quero me satisfazer com a intimidade de uma série completa. Perder um dos fios da memória significa enredar-me em uma trama na qual um supõe a existência dos outros. Um só elemento perdido é a causa da frustração do todo.

Para não provocar a decadência prematura desse reino sublime, desenrolo a ilusão sobre as lacunas, tentando pavimentar com detalhes inventados as partes imperfeitas. Tomo emprestada a ficção para que ela dê conta do fato perdido, do objeto postergado. Assumo provisoriamente o biografema de Barthes, penetro no campo do gozo dos resíduos signícos. Faço isso só por me aliviar, mas não me satisfaço com plenitude. Barthes pode se interessar pelos fragmentos aleatórios, mas eu, de outra sorte, só quero colecionar memórias que sejam inteiras:

Sylvia Plath, Ian Curtis, Federico Garcia Lorca, Salvador Dali, Truman Capote, Camille Claudel, Jean-Michel Basquiat, Edvard Münch, Gustav Klimt, Michelangelo Caravaggio, Jackson Pollock, Maria Callas, Wolfgang Amadeus Mozart e tantos outros ainda subordinados ao meu desconhecimento.

Assisti a cinebiografias. Li biografias. Delas recolho os detalhes trágicos como quem reúne artefatos em um relicário. São como delicados haicais, formas inteiramente belas e intensamente patéticas. “Adeus, amigos, irei para glória”, diz Isadora Duncan, ao entrar em seu carro esporte, para depois, acidentalmente, ser estrangulada pela echarpe. E: “Espero que minha partida seja feliz, e espero nunca mais regressar”, registra Frida Kahlo em página de diário, antes do que seria sua tentativa de suicídio bem-sucedida. Ou o triste Van Gogh, agonizando no leito de morte, depois do tiro auto-infligido, que sussurra ao irmão Theo: “O sofrimento não terminará jamais”. Ou ainda: Álvares de Azevedo, o senhor absoluto das palavras de antes do suspiro: “Fatalidade, meu pai”. E uma inquietância: Pablo Picasso chamando por Modigliani antes de expirar, como previra muito antes a esposa suicida do italiano.

Alinho os objetos biográficos em uma fileira, catalografo os itens, traço as linhas do tempo, monto os quadros de humor, crio a constelação dos afetos. E algo sempre me escapa e me afeta. Chego a desconfiar que o biógrafo seja um álibi da perda, adiando uma posse definitiva.

Tudo porque considero que assumir a propriedade privada dos outros é minha função. Depois: arranjar, classificar, manipular. Ao empreender apaixonado projeto, coleciono histórias de vida e narrativas de morte. Abstraio das narrativas biográficas sua função verdadeira – se ainda posso referir-me verdadeiramente ao real como algo palpável ou funcional. Não quero pedagogias nem edificações. Um objeto da coleção é para ser apreciado como a um troféu. Nada se aprende com ele porque o que importa é apreender.

Assumo como possível o parecer de Coleridge: a vida de qualquer um, se contada com veracidade, oferece interesse. Acrescento ao pensamento: completude. Não basta uma vida de peripécias e sofrimentos, não basta o senso comum afirmar ‘minha vida daria um romance’. É preciso compor com sutilidade o quebra-cabeça de um sem-número de elementos. O interesse pelo artefato fragmentado se dá apenas quando nele está guardada uma potência totalizadora. É justamente por isso que sou cativo de quem morre, de quem encontrou o absoluto, fechando a jornada. Assim é mais fácil recolher os pedaços, construir os limites do edifício e museificar para permanecer.

O colecionador é aquele que impede o desaparecimento da memória-objeto e que, por puro crime passional, poderia destruir a repetição do mesmo para ter apenas para si o objeto raro e original. O colecionador biográfico, pois, acumula outra função: é um restaurador de auras – das almas dos que já se foram (e não voltam mais).

.: marcio markendorf
.: imagem de: a memória, rené magritte, 1948.