1.07.2019

Família tradicional


Carlos foi criado em uma família tradicional, com valores muito tradicionais. Os pais tinham umas revistinhas de sacanagem, bastante conservadoras e com as quais o garoto tomou contato acidental, do tipo "A trinca dos sacanas". O conteúdo da publicação? Uma fotonovela sobre três caras que saíam pelas ruas sequestrando e violentando "mulheres que estavam pedindo". Nada melhor para incentivar fantasias de almanaque sobre o estupro, não é mesmo? Além dessas revistinhas, havia, também, outras, cheias de classificados de swing e de casais religiosos "muito curiosos". Os anúncios exigiam envio de fotos, em sigilo, para caixas postais. Carlos sempre teve curiosidade sobre caixas postais, mas nunca perguntou nada.

Apesar de crescer em uma família tradicional, com valores tradicionais, Carlos cresceu com sua fabulosa identidade queer.

Sorte a dele. E do mundo.

.: marcio markendorf

9.30.2018

as amarelas flores de setembro

caro doutor tedo,

o que o senhor acha que eu posso fazer com isso, com essa sensação estranha de ser um impostor? parece que, em algum ponto indeterminado do tempo, fui substituído por versão pior de mim, emburrecida e lobotomizada. já não consigo mais me concentrar como antes no trabalho - dobro e desdobro o olho  sobre a mesma página. leio inventando palavras, trocando as coisas de lugar, suprimindo passagens, feito um sonho mecânico terrível. quando desconfio que a frase não tem sentido, releio e percebo que me perdi pelas ruas das frases, entrando em becos e seguindo na contramão. fico com a impressão de que fui acometido por um tipo novo de dislexia, de baralhamento das ideias, algo que se rende também nas falas: a língua tropeça na boca, se retorce, gagueja e perde-se no que dizia. sem contar que é um esforço imenso para me concentrar e não me dispersar, pois como um coelho elétrico, salto de um ponto a outro, constantemente. antes desse evento que me acomete, eu ouvia música enquanto trabalhava, sem maiores implicações, mas hoje até os pássaros lá fora me incomodam, me deixam irritado, distraído, profundamente distraído. traído pelo descanso, nem sei dizer qual foi a última noite de sono decente que eu tive - tenho sido atingido pela insônia ou pelo sono intermitente há muitas e muitas noites. piora se antes de me deitar eu fico lendo trabalhos de alunos, a cabeça no travesseiro não para de intervir, o sonho vira uma oficina do diabo. pela manhã, ainda cansado, fico lutando para me manter acordado e atento e interessado nas coisas do mundo. na sala de aula, visto a fantasia cordial e do bom professor, tento me apresentar na melhor forma, como se nada. e por dentro: eu me sentindo burro, estúpido, incoerente, insuficiente. fico sempre pensando que eles poderiam ter um mestre mais interessante, ou que minhas aulas fossem radicalmente mais intelectuais, ou que eu dissesse coisas que produzissem impacto. e eu só sinto que estou indo, às cegas, como um tronco de enchente, chocando-se aqui ou ali, desgovernado. cansei de voltar para casa dando aulas na mente - fico zangado comigo mesmo por não ter dito isso ou aquilo, por ter me esquecido de tal livro ou de não fazer tal relação. se eu dou quatro horas de aula em sala, dou outras quatro para mim mesmo, como penitência por ter sido tão medíocre. as coisas pioram quando tenho notícias de meus colegas, pois todos parecem saber muito desenvoltos sobre o que dizem. eu, do outro lado, sinto que estou de fora, que sou uma fraude bem armada, então tenho medo de dizer qualquer coisa, me recolho em minha casa pequena por receio da humilhação pública. é como naqueles sonhos em que você, de repente, descobre que está nu no meio de uma festa de gala, todos olhando para você e rindo, rindo muito, mas com certa classe e altivez. por sorte, a vontade de saltar de prédios e na frente dos carros já passou (embora ainda seja tempo das amarelas flores de setembro). o problema é que esse desejo foi substituído pela procissão solene dos pensamentos trágicos e absurdos. fico vendo a imagem: do meu apartamento em chamas, as labaredas saindo pela sacada, destruindo tudo; da minha cachorra morta no hall de entrada, depois de ter pulado do quinto andar; do meu namorado morto em casa porque eu levei a chave que estava na porta e ele não encontrou nenhuma das duas outras cópias, não tendo tempo para fugir de um vazamento de gás. mas claro que não posso dizer nada disso a ninguém, pois não entenderiam, iam pensar que surtei, que sou um perigo se não estiver devidamente controlado por medicamentos. mas pelo contrário: nunca pensei em fazer o mal de verdade, exceto a mim mesmo. não posso negar, no entanto, que tive dias sombrios, fantasiando violências em resposta à vontade de matar e de destruir. tudo acontecia dentro do silêncio daquela timidez circunspecta, de canto de sala olhando o mundo e enterrando-o. e se não bastasse as coisas que sofro, são meus pais que me ligam para reclamar do meu irmão, são meus amigos que aparecem para reclamar do ex, são meus colegas que se reúnem para reclamar do trabalho, sempre pedindo conselhos e conselhos como se eu fosse uma cornucópia da auto-ajuda. será que eles nunca se deram conta de que em momento algum eu reclamei sobre alguma coisa, que eu também poderia ter algo que me incomoda, mas que ninguém prestou atenção ou quis ouvir? possível que seja por isso que eles sempre me peçam ajuda, uma vez que parece que sempre estou salvo do mundo. a verdade, doutor, é que todos os dias é essa mesma batalha interior, algo que culmina com o carneamento do leão, o cotidiano cheio de sangue. amanhã começa tudo de novo, a distração, os pensamentos, a síndrome do impostor. o que importa é que ainda estou vivo. por quanto tempo não sei, tenho esperanças, apesar de tudo. por isso é que eu bem quero que o senhor me responda o que é que eu posso fazer com isso? responda asap.

2.23.2018

Uma pequena história da vida virtual



Après David Foster Wallace


Quando ficou online, ele postou um conteúdo de posição política correta, não porque acreditasse no poder das redes sociais, mas porque queria ser apreciado pela opinião.

Ela, por sua vez, curtiu a postagem e fez um pequeno comentário sobre o texto, também esperando ser apreciada pela opinião.

E assim foram os outros amigos em comum desses dois. Todos querendo ser apreciados por suas posições corretas ali expostas.

Depois, cada um deles se sentiu um tanto feliz, por estarem sendo apreciados, embora não estivessem contribuindo exatamente para mudar nada.

Talvez fosse por isso aquela perturbação da alma, um estranho vazio, mesmo depois de novas curtidas e congratulações. Sobretudo porque nada havia mudado no mundo.

O homem e a mulher que se apreciaram no início não gostavam muito um do outro, nem os outros, embora agissem como se assim fosse, apenas para não perderem um bom momento de serem apreciados.

Afinal, nunca se sabe, não é mesmo, não é mesmo, não é mesmo?

.: marcio markendorf

4.04.2017

Casa Tomada II (après Julio Cortázar)




Sonhei que morava em uma casa mal-assombrada. O mal vinha de todos os lados e eu, impotente, não conseguia sair. De repente, temer aparecia vendendo uma apólice de seguro; marcela surgia em um canto escuro da sala, deitada em um ataúde.

Porque não tinha a chave, fiquei preso na casa.

Acordei contendo o grito. Era apenas um sonho.
Era?

.: Marcio Markendorf

12.07.2016

Sem título













O coração é horrível:

Uma massa de carne, 
Em artérias e veias enrodilhada

Feito gato esmagado no novelo.

Além das postas,
O pulso também assombra 

Bater de pés e portas, 
Chuva, terreiro, tambor,

Canção embriagada,
De promessas tortas
No muro,
No poste,
Atrás da estrada.

Thrill, frio na alma.

E para quê?
Muitas vezes, pra nada.

7.13.2016

Driving visions


Luzes de posição,
Chove a cântaros,
Dirijo com luzes âmbar no reboque.

Meu coração está à disposição
Da próxima curva,
Da espera por acostamento,
Da vontade de encostar meu peito
Nas tuas costas em sono só,
Marcha lenta.

Como em aquaplanagem,
Meu coração desliza pelo espelho de água funda,
Sem frenagem, fora de controle,
À espera do desastre, do ferro retorcido de nós dois
Fazendo do beijo as nossas ferragens.

Contra o guard rail,
No choque, o cárter vazou,

O bloco de motor ficou cheio de calor -
Eu também, baby, sim, por você.

Meu coração, depois, ficou monobloco,
Sobre duas pernas,
Inesperado e romântico,
Com o polegar da mão erguido.

E foi um milagre:
Sistema de transmissão
De pensamento.

Você pegou no tranco
Após a conversa da última noite,
Desceu de banguela, me pegou de carona sem cinto.

Sinto muito,
Pois agora eu vou contigo até o fim,
Sem freio, sem mão dupla,
Estrada de mão única e sentido doce.

.: marcio markendorf

6.30.2016

black friday



À chegada do séquito de consumidores, os feirantes forjam o melhor sorriso possível nos rostos ansiosos. Não existe falsa simpatia enquanto não conhecemos a fundo o coração das pessoas: é bem mais fácil acreditar que o vendedor sorri porque nos acha miraculosamente belos ou bastante simpáticos, porque lembramos seu pai, sua irmão, ex-namoricos, etc, como se remeter fisicamente a alguém da família ou antigos casos amorosos fosse bom agouro, sabendo-se lá o que cada adulto leva em sua estufada bagagem interior, isto é, sua experiência, o que pode abarcar pais abusivos, relacionamentos incestuosos e rompimentos traumáticos, e não porque está louco para nos enfiar goela abaixo novas necessidades que antes nós não entendíamos como, well, necessárias.

Hoje é dia de faturar e o sorriso falso em questão de tempo deverá ser substituído por uma genuína e expansiva gargalhada de triunfo. Imagine a risada casualmente maligna ecoando pelo infame recinto dos contadores, proporcionando um pequeno entreouvido, daqueles de firmar orelhão em cerca de madeira, das liturgias satânicas do american dream ou, neste caso, de seu irmão caçula, o latin american dream.

Espalhado por tendas na companhia de pequenas plaquinhas indicativas de preços e descontos, dá-se às vistas um inventário considerável de manuais de invocação, grimórios e cramunhões. É a promoção do dia, então o custo-benefício é incomparável. Por motivo de boa vizinhança, nenhum dos feirantes abusa no preço deslealmente baixo, evitando uma reação em cadeia de prejuízos para si e os outros. Ademais, o vilãozinho certamente seria expulso da feira ou teria sua alma maculada entregue a Belzebu num ritual sabático, pois dia útil é dia de batente.

À luz minguante, entram e saem clientes das mais diferentes classes, metade do salário, cinco por cento, que seja. Nossos produtos garantem um futuro confortável. Ai que lindo mãe posso levar, indaga uma angélica garotinha apontando para um boneco de vodu. Incapaz de resistir aos encantos da menininha, a mamãe desperdiça o câmbio para fazer sua vontade. Bacana, mas é sempre preciso ter cautela para não mimar seus filhos. É preciso impor limites ou eles sentam em cima. Morrerá em segredo o propósito deste boneco em específico.

Quando a alvorada se impõe, gloriosa, abrasada e pagã, já não sobraram muitos consumidores. É hora de animadamente desmontar as barracas, encerrar as atividades e voltar pra casa. Parabéns, pessoal, todos lucraram o dobro do mês passado e sem sacrifícios. Risadas. Viva, viva. Hoje vai todo mundo comer bem pra caramba lá em casa.

_gabriel resende santos_

5.06.2016

trilogia do ômi III: comentário sobre o infinito



Um rapaz negro, um homem branco e uma mulher branca de sovacos perfeitamente brancos morreram. O jornal fala do rapaz negro que morreu sugerindo nas entrelinhas que ele mereceu morrer. Em sincera consternação, todavia, pelas outras duas vítimas do mesmo acidente. Um rapaz negro morreu e a televisão fala disso durante um minuto, antes de cortar pros sovacos perfeitamente brancos da atriz branca numa propaganda de perfume caro. Um minuto também. As propagandas de cerveja importada repetem que álcool de qualidade é coisa exclusiva de homens brancos com ternos finos em carros blindados que carregam as atrizes brancas de sovacos perfeitamente brancos no fim do comercial. Um rapaz negro morreu e não vai beber cerveja importada e nem usar o terno fino, o carro importado ou o perfume caro da atriz branca de sovacos perfeitamente brancos. Atores negros surgem esporadicamente, musculosos e simpáticos.

Um rapaz negro nasceu. Nasceu já rapaz, não passou pela infância, adolescência, nem vai chegar à velhice. Um rapaz negro saiu do útero já formado, em seus um metro e setenta de altura raquíticos, matando a própria mãe ao arrancar seu estofo de órgãos junto com o cordão umbilical. O rapaz negro saiu e correu direto pro ponto em que devia morrer, arrastando uma parte da mãe, ciente por instinto de sua durabilidade deteriorada. No caminho ele cruza com garotas negras que gerarão, morrendo no processo, rapazes negros que por sua vez nascerão rapazes e morrerão no mesmo dia. Chega ao seu destino: um carro blindado dirigido por um homem branco de terno fino acompanhado de uma mulher branca de sovacos perfeitamente brancos que o atinge na avenida, pois o motorista perde o controle do carro e, após passar por cima do rapaz negro esmagando sua coluna e seu crânio e espalhando pedaços de cérebro no asfalto desgastado, acerta também um caminhão estacionado provocando uma explosão que incinera as três pessoas envolvidas.

O rapaz negro morreu sem tempo de tomar cerveja importada, ou vê-la, e não teve tempo de se arrepender de ter corrido em direção ao ponto e instante exatos de sua morte em vez de beber cerveja. Seus filhos, todos eles rapazes negros ou garotas negras que por sua vez gerarão outros rapazes e garotas, passarão pelo mesmo círculo porque são rapazes negros condenados a não ter infância ou velhice: um ponto numa linha reta demarca os limites da vida do rapaz, a trajetória do segmento é ínfima. O começo e o fim estão tão próximos quanto o rapaz negro e a mulher negra ficam próximos quando procriam. Seria uma boa memória ou a única, se o rapaz negro tivesse tempo de cultivá-la.

Uma garota negra nasceu. Não conheceu seu pai também rapaz nem sua mãe também garota. Sai do útero com garantia vencida e prontamente concebe uma nova garota negra e um novo rapaz negro. Olha pra trás e vê sua mãe morrendo. Um rapaz negro começa a correr encharcado de sangue arrastando o fio umbilical e o corpo da jovem mãe. Ao contrário do rapaz negro, a garota negra tira um segundo do seu único dia de vida pra chorar um pouco. Um segundo em tempo de inseto é mais do que o suficiente. Ela limpa a lágrima rápida com a mão e já está preparada pro que inarredavelmente sucederá quando o rapaz negro aparecer poucos segundos depois.

O jornal prefere não se estender com histórias. É um veículo que vai direto ao ponto, assim como o veículo do homem branco. Afirma que o rapaz negro morreu como rapazes negros sempre morreram: são rapazes negros. O jornal não explica a morte das garotas negras. O rapaz negro e a garota negra não tiveram tempo de ler o jornal, na verdade nem tiveram tempo para aprender a ler, que todo dia todo mês todo ano é estampado pela mesma manchete apesar da variação de preço. Poderia se afigurar uma importante revelação aos olhos de um homem branco rico atento ao sistema inextricável das coisas. Contudo, a maioria dos homens brancos ricos, eles que nasceram no mesmo dia homens brancos ricos, não liga se estão confinados a uma reta temporal interminável, a um ciclo complexo de paradoxos e doppelgängers. Sabem que os espera em casa um terno fino. Se a televisão estiver certa, o traje chique vai auxiliá-los na prática da conquista das mulheres brancas de sovacos perfeitamente brancos, fora as que eles já têm, irmãs ilícitas, que vão levar na festa assim que elas terminarem o que estão fazendo agora mesmo: dando à luz suas crias incestuosas. Eles não sabem que no universo só existe uma mulher branca de sovacos perfeitamente brancos e que a imortalidade era só uma enganação.




_gabriel resende santos_






imagem: crianças brincando nas ruínas, henri cartier-bresson

4.07.2016

A primeira vez

Para o Rafa

A primeira vez que nos encontramos, eu estava vindo de uma festa, você estava vindo de um lugar onde deveria ter tido uma festa, mas eu já tinha estado ali, antes, naquela mesma festa em que eu encontrei você, voltei por insistência de amigos, e você, por insistência de amigos, foi cair ali, no mesmo lugar que eu. Quando, sem querer, ficamos muito próximos, os dois contra a parede, copos suados de chopp nas mãos, apertados contra a parede e a multidão, suados, nos olhamos, sorrimos mutuamente e, sem qualquer crise ou hesitação, nos entregamos ao enlaçamento secreto das mãos, longe da altura dos olhos dos outros. Dentro em pouco, confiantes, talvez pelo pequeno pileque, talvez em vista da comoção daquela hora, nos beijamos de modo intenso, embaralhado, despudorado. A intimidade veio a público e tornou-se parte da praça, também pública, agora amante ao som da música. Então vieram vindo: meus amigos foram me arrastando, me puxando, alegando estarem com fome, atrasados, prestes a perder a carona. Sequer nos despedimos direito. Para trás você ficou, enquanto eu ia para frente. E só. Sós ficamos.

Por pouco tempo.

A primeira vez que nos encontramos depois foi pelo Face. Você disse 'hey', eu disse 'hey, estou surpreso de te reencontrar'. Depois disso não paramos de falar sobre a semana que nos separou, fazendo graça com o quase desfecho do "fui-trocado-por-um-x-salada-com-coca", relembramos o clímax daquele momento, ficamos sérios e apreensivos com a confissão da vontade mútua de nos ver. De novo. E mais. Marcamos um encontro, nos despedimos.  Mas, cada qual, passou o resto do tempo sem fala a fuçar no perfil um do outro, a escondido, descobrindo pequenos pedaços, histórias, falhas, afetos, datas, só para sondar os territórios de pisada.

A primeira vez que tivemos um encontro foi em minha casa. Chamei você para um almoço, qualquer coisa com salada, sobremesa, filme de tarde, pipoca, guaraná, um programa legal. Só eu e você. Quase como uma propaganda, uma família Doriana, um casal de refrigerante. Descobri depois que você não gostava muito de carne vermelha, mas não disse nada quando servi aquele pedaço de bovino assado com batatas, alecrim e cerveja. A despeito dessa gafe, não dá nada, tivemos aquela conversa animada sobre as coisas que descobrimos sobre o outro, detetives de internet e perfil. Claro que a comida foi esfriando nos pratos, mas o coração seguiu esquentando no corpo. Encerradas duas horas à mesa, nos jogamos no sofá, escolhemos um filme e ficamos abraçados.

Foi a primeira vez que dormi com você.

Ali, no sofá, vendo um filme que nem lembro mais qual era, adormeci. Suas mãos acariciavam minha cabeça apoiada no seu peito enquanto suas costas descansavam contra umas três almofadas. Uma cachorra dormia aninhada entre nossas pernas, enchendo a cena ainda mais de languidez. Eu só acordei, babando, quando o filme já tinha terminado. A primeira vez que babei em você. Rimos da situação, do meu constrangimento, da intimidade inesperada daquele momento. Fiquei menos tímido com sua defesa: "ora, se já nos beijamos...saliva contra saliva...". Então foi quando nos beijamos mesmo. E mais.

Naquela tarde, o reino da primeira vez havia sido fundado.

Hoje, perto de um ano daquela festa, mesmo quando fazemos coisas que já fizemos outras vezes, tudo ainda parece novo e fresco. Não reclamamos de tédio tampouco reclamamos um do outro. O que mais fazemos é reclamar presença, reclamar da ausência. Por isso, por nos querermos tanto, há aquela vontade doida de verbalizar o eu-te-amo de um modo mítico - como se durante a noite o amor morresse durante o sonho e precisássemos reafirmá-lo, acordados, a cada manhã reposta. Tudo para que a primeira vez seja atemporal, sem fim, roçando doce nas mãos dadas de nós dois.

.:marcio markendorf



4.06.2016

trilogia do ômi II: seu adjetivo preferido



O cara legal espera de pé por alguma coisa ou alguém recostado numa árvore bonita em uma tarde de tempo firme. A árvore bonita combina com o cara legal, já que ambas as criaturas são pacíficas, serenas e bem-apessoadas. O cara legal espia seu celular provavelmente em busca de informações sobre o algo ou alguém que vem ao seu encontro.

O cara legal é um pouco ansioso, sem dúvida, como não poderia deixar de ser a alguém que espera sozinho numa tarde de tempo firme sob a folhagem de uma árvore bonita. Nem tanto a ansiedade de sair dali, mas a ansiedade de finalmente deixar a sombra é que ocupa os discretos vazios da mente aflita do cara legal. Resumindo: caras legais não combinam com sombras, sequer aquelas lançadas por árvores bonitas.

O cara legal tem a síndrome da perna inquieta (mas caras legais dificilmente contraem doenças com manifestações físicas aparentes, caras legais não têm doenças autoimunes), ou seja, o cara legal também está um pouco cansado de permanecer parado à espera de alguém ou algo que pode ou não ter alguma utilidade definitiva na sua vida. O cara legal é utilitário, o que aqui tem outro significado. O de que a utilidade tem valor pro cara legal como o estoicismo pro estoico. O cara legal só gosta daquilo que é útil porque o contrário forçosamente não pode ser legal.

Sabe-se que o cara legal gosta de boa música, de bons livros, de vidas boas, boas comidas, boas pessoas, boas mulheres, boas bundas, boa diversão, sabe-se que o cara legal gosta de bons e boas. O cara legal é profundamente bom. Visceralmente bom. O cara legal fica irritado com a espera e tecla algumas palavras talvez impacientes no seu celular. Esperar não é legal.

Uma vez o cara legal esperou por uma garota em circunstâncias parecidas, também recostado numa árvore bonita. O encontro com a garota foi atravessado de piadas legais e elogios legais e autodescrições legais. O cara legal teve ainda mais certeza de que era legal, uma convicção que certamente não o torna menos legal. Se a garota pensou diferente, nós não ouvimos. E o que a garota tem a dizer não é legalmente legal. É apenas um achismo. Um cara legal está acima de opiniões irrefletidas lançadas a esmo por gente desqualificada. Não que a garota seja desqualificada, nós nem sabemos o que ela disse: mas dependendo do que disse, podemos presumir algumas coisas.

O cara legal não lembra da garota. Todavia o cara legal sempre lembra de ser especialmente legal, como naquele dia em que ele contou uma piada muito legal que fez metade dos amigos rir de chorar. Ou apenas chorar, o cara legal sabe causar reações conflitantes. O cara legal tem o dom do discurso, é articulado, o cara legal é um cara capaz. Cara capaz poderia ser o codinome do cara legal.

Imagine uma legião de caras legais e portanto capazes realizando grandes obras e transformações na sociedade. Seria perfeito se não fosse impossível. Caras legais possuem uma falha natural, talvez até um pouco legal no sentido de 'uau que ironia', uma falha bruta porém romântica, que é o pormenor raramente comentado da inaptidão incontornável de reconhecer um ao outro quando se veem. Um cara legal não sabe o que é legal fora de si mesmo, sua ideia do que é legal esbarra na ideia de ser ele mesmo. O cara precede e legitima o legal. Ele é o legal em si mesmo e todo cara legal que conheça filosofia usará estas mesmas palavras para conceber sua defesa, talvez substituindo o legal por 'gênio', 'intelectual' ou 'poderoso'. Penso, logo sou legal. O cara legal que é em particular muito muito legal prefere usar sinônimos intrincados para variar a terminologia do cara legal, evitando reduzi-lo a um recurso de repetição pouco fluído ou a basear seu discurso na exploração de um adjetivo que já é bastante genérico. O cara legal é sui generis.

O cara legal que espera recostado na árvore bonita e ignora a legião de caras legais que o precedem e sucedem olha novamente para o celular e para os lados, tentando identificar o algo ou alguém que se aproxima. O cara legal é ótimo em improvisos, mas sem uma plateia vê-se obrigado a esperar encostado e mudo. A ansiedade do cara legal dobra de tamanho. Ele se pergunta sem visar pontos de interrogação: Será que o cara legal não é suficientemente legal para essa coisa que demora tanto para chegar, será que o cara legal vai ser deixado a sós com a árvore bonita e sua própria natureza legal. Estas dúvidas não são nem um pouco legais, o cara legal reconhece, mas são razoáveis. Afinal, o que significa para um cara legal descobrir que não é legal. Não que a opinião da coisa de que já não temos certeza que se aproxima pese algo nessa balança, mas o cara legal confronta-se a cada segundo com a própria autoestima relativamente não legal. Não dá pra ser legal se você não se considera legal, o cara legal diz pra si mesmo. O cara legal não está contente com esses questionamentos e começa a ficar furioso e curioso com a demora do algo ou do alguém. Será que outro cara legal, mais legal, surgiu pelo caminho. Um cara legal pode ter obstruído outro cara legal, isso legalmente devia ferir o código de ética. Ou não, nada se pode fazer quando um cara legal é mais legal do que outro. É uma competição tácita e todos os caras legais reconhecem-no em sua caçada pelo que é legal no universo. Açoitar o próprio cérebro com dúvidas nada legais é o primeiro passo para a degeneração, o cara legal bem sabe enquanto o impulso de arremessar o celular longe começa a se pronunciar no cantinho recôndito das vontades mais reprimidas do cara legal. Um cara legal não pode ser legal para sempre, não pode ser legal em paz?

Então, de repente, o cara legal olha pra direita, pois seu instinto é olhar para a direita, e descobre exatamente o que queria. Um sorriso estende-se na cara legal. Um sorriso que alguns chamariam solar e outros noturno porque as pessoas fatalmente enxergam as coisas de jeitos muito distintos, afetadas que são por graus de miopia, hipermetropia e astigmatismo. Diremos apenas que era um sorriso legal e que destarte não pode ser julgado por qualquer um que não seja legal.

O cara legal oculta o celular no bolso, sem ocultar o sorriso, e finalmente deixa a sombra da árvore bonita preparado para um abraço ou uma assinatura ou um estrondo ou um beijo ou um bicho. Sombras não combinam com caras legais.



_gabriel resende santos_