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2.19.2012

Pescados



Jorge Pescados: reciclando detritos para melhor lhe atender.
Peixes são vendidos a cada quinze dias.



.: philipe macedo pereira

8.22.2011

a vida econômica como ela é

dentro do ônibus, um artista.
dentro do ônibus, um escritor.
dentro do ônibus, um professor universitário.
fora do ônibus, em bmw's, estão:
açougueiros, salafrários e insensíveis.

.:marcio markendorf

7.23.2011

telemetamorfose


- Doutor...desculpe interromper...é aquela barata no telefone novamente.
- Mas que pesadelo! Diga que eu não estou.
Era tudo o que o psiquiatra lembrava, depois de acordar de sonhos recorrentes.

.:marcio markendorf


 Quando certa manhã Franz Kafka acordou de sonhos intranquilos, foi capaz de jurar com felicidade que duas anteninhas haviam brotado de sua cabeça.

às pobres coitadas que pés bélicos hitlerianos (des)politicamente incorretos a-i-morais chauvinistas massacram todos os dias em todos os lugares do mundo.
.:gabriel resende santos

6.10.2011

vingança


Na primeira vez que meu irmão me matou, ele tentou esconder o corpo.
Mas: eu voltei.



1.14.2011

fascismo


tentou todos os regimes, deu-se bem apenas com o de engorda.

.: marcio markendorf
imagem: la lettera, fernando botero.

8.03.2010

As três Marias

As 3 Marias

Maria Loca
Todos os dias de manhã,
Antes de levantar,
Come três bolachas Maria.

Diz que é para evitar o enjoo
Diz que a bolacha faz um tampão no estômago
E a deixa boa para enfrentar o dia,
Naquela rotina que lhe dá ânsias de vômito.

Maria Loca aprendeu com a avó
O segredo das três Marias
Uma avó que não é astróloga
Nem benzedeira

Uma avó que sabe que o mundo é difícil de suportar.

.:marcio markendorf

11.11.2009

Ele


tinha apenas quinze anos e já não conseguia enxergar.
o caso era uma desgraça para a família.
não havia outra saída.
mamãe mandou cortar a franja.

então ele passou a tarde toda chorando, ouvindo rock romântico e sentado ao lado de uma faca de serrinha.
.:marcio markendorf

10.16.2009

a história mais infame que a outra

começou a tomar no cu.
vendo os pedaços da pobre vida no chão,
lembrou-se de fazer de novo a pergunta,
provavelmente de quatro:
'mas que será que eu fiz?'.

.:marcio markendorf
microconto da série de histórias infames surgidas como um clarão nas horas mais entediantes do dia. ou também: pequena literatura de pensamentos bestas.
continua com a decisão i-nédita de não inserir imagem ilustrativa [só para propor a manutenção da sacanagem].

10.14.2009

a outra historia infame

começou a tomar gingko biloba.
segurando o frasco de comprimido, lembrou-se de fazer
de novo
a pergunta:
'será que eu já tomei hoje?'.

.:marcio markendorf

microconto da série de histórias infames surgidas como um clarão nas horas mais entediantes do dia. ou também: pequena literatura de pensamentos bestas.

o resultado final conta com ligeira colaboração de oberDan piantino e o pitaco de camila lourenço. com a decisão um tanto inédita de não inserir imagem ilustrativa [por pura preguiça].


10.01.2009

a história infame

Quando eu crescer, queria ser anão.
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.:marcio markendorf
microconto da série de histórias infames surgidas como um clarão nas horas mais entediantes do dia. ou também: pequena literatura de pensamentos bestas.
imagem: dutch giant jan van albert with his wife and dwarf beppetoni, 1910.

6.17.2009

o romance a seguir trata da desestruturação de um relacionamento de dez anos no coração da metrópole.

então é assim? pode ir embora. vá. eu peço. vá e não volte. e nunca mais peça ao volte que me procure. nem me procure por onde eu for. não me quer aqui e não peço para ficar. faço a volta e parto. é isso, é desse modo mesmo. só que aviso logo: daqui pra frente eu que sou o rei. um dia irá me ver, de dentro de uma loja, passar pela rua, altivo, ganhando o mundo. e saberá que perdeu. e ainda: que o manequim de vitrine, o objeto, nunca fui eu.

6.12.2009

eu não sou depois de quatro horas de vodka

quanto tempo faz não sei. e se algum dia eu soube, esqueci. um inferno isso. que faço eu agora? o músculo da perna treme. quase me faz derrubar os dois fios branquinhos em cima da carteira. pára, porra, pára perna. é um banheiro, estou num banheiro. a cabine, fechada. ouço vozes de gente bêbada e mulheres batendo na porta. quero tanto ficar fora do ar e esquecer o que existe lá fora. lambo a borda do cartão. é bom esse gosto amargo e a dormência que vem depois. melhor ainda a sensação descendo de cima da garganta, adormecendo a respiração, a língua, me colocando logo eufórico e travado. abro a porta. quanto tempo não sei, mas que alguém quase entrou a ponto de vomitar em mim, isso foi. nem me lembro de você. ou de você. ou dela.

acendo um cigarro. chego mais perto do espelho e noto a pequena denúncia no canto do nariz. discretamente molho as mãos na pia e finjo lavar o rosto. artimanha de bêbado. ninguém nota. quanto tempo não sei. ninguém sabe. então me lembro que antes eu ficava com alguém no meio da pista. quem era não sei. se soube, esqueci. odeio esquecer as coisas e transformar a potência de ser alguém na insuficiência do ser ninguém. ando tendo blecautes terríveis pelas noites: acordo em casas que desconheço, em camas que nem imagino e com pessoas que nem por deus. quase acho sorte esquecer das coisas que eu posso me arrepender se descobrir a verdade. se aconteceu mesmo, não sei. pode ser alucinação também. então, melhor que seja assim. quando vi o dealer, nem sei como foi, a coisa rosada já estava na minha mão, depois embaixo da língua e descendo com o último gole de vodka. não lembro se foi antes ou depois do banheiro. aconteceu, não importa. importa que eu existo, você existe, você também. e você, de olhos azuis. por que da cor dos seus olhos? e do formato de sua boca? por que sua cor branca e seu sorriso insuportável de tão lindo? o que é dessa beleza que não sabe de onde veio e nem para onde vai? se deus existe, eu esqueci. são as coisas no mundo que me lembram dele. e são as coisas no mundo que me fazem esquecer de mim. quanto tempo faz não sei. sei que não sou quem pensei.

6.04.2009

dois dias depois e muito tempo ainda.

os lábios estão vermelhos. que temperatura faz? cem graus, zero graus celsius? não dá para saber se é o vento ou o vapor que me queimam a pele. acho que estou desintegrando no ar. há quanto tempo não sei. segundos, talvez dias. estou errado, é no chão que estou. enterrado. neste lugar eu derreto. aqui mesmo, neste espaço, répteis rastejaram, a relva secou com a lava, os peixes nasceram. eu morri e estou num ataúde úmido de fundura. é o mar ou o frio agora? parece um deserto de sal à noite. talvez o lado de fora de um iglu. devo ser um pinguim. albino. não, é uma jaula, tenho certeza, tenho certeza de que é uma cela. o concreto da parede eu comi. já comi o concreto de mim. não quero mais a coisa boa. está um arrepio de doer. como a última caixa-preta cheia de conversa no fundo do oceano. azul. e ainda queima a flama, o trem fumacento, a cápsula espacial no pescoço. da janela vejo os cavalos trotando mil e quinhentas águas. tem, sim, sangue no som da ondas saindo da boca. é uma espuma, uma afta, um tentáculo. eu comi, comi o peixe-espada, comi o engolidor de adagas, o circo e o leão. onde estou? está frio, o lábio queima. não suporto a dobra que me desliza sutilmente a língua. dou uma patada no ar e a temperatura cai. que horas são? talvez quatro horas, talvez se eu voltar descubra quem sou eu. algo que queima, o ele. se é assim, assim não seria: um salto no desconhecido. os lábios estão vermelhos. que faz a temperatura? zero graus, cem graus. celso, escuta?

5.20.2009

a fantástica fome

eles caminhavam há dias. meses talvez. na pior das hipóteses, há anos. ninguém diria que aquele pequeno grupo - três homens e uma mulher - um dia saiu para almoçar e não parou mais de deambular pelo mundo. não que eles quisessem. era sábado. e para aquele sábado o diabo estabelecera um plano perverso no qual todos os restaurantes estariam fechados. de porta em porta, de fachadas de vidro a frentes pitorescas, nada encontravam. a mulher era que constatara primeiro o estranho acontecimento - dela escapava uma decepção doce nos olhos, compreensiva, dessas que levantam o corpo com o suspiro da esperança. até um tipo de hábito formou-se. vinha a outra esquina e nada. e outra e outra e nada. suspiro, ajeitar dos cabelos, decepção doce - 'quem sabe no próximo...'. mal sabiam que aquele sábado se tornaria um hábito que se tornaria rotina que se tornaria uma vida inteira. pois, afinal, no desenvolvimento do plano do diabo, todos os dias se pareceriam com o mesmo sábado. nenhum dos outros percebeu - exceto o mais alto de todos, certamente porque já escapara da morte uma vez - o quanto haviam penetrado no absurdo dos sábados que se repetiam. 'que fazer com a fome?', se perguntavam no espaço mais íntimo do corpo. mas não se perguntava como caminharam do sul do brasil até a costa da costa rica. o antropólogo do grupo pensava em símbolos, alegorias e organizações de sentido para a nova cultura tribal que se formava - a de três homens e uma mulher que erravam pelas cidades em busca de restaurantes abertos aos sábados. o professor, sim, aquele com cara de garoto maroto, fez um pequeno diário e registrava cada nome de estabelecimento fechado. disto tirava nomes de personagens, cenários e muitas fábulas que um dia ensinaria. ora, mas todo futuro já não era subjuntivo para os sábados que se repetiam? desculpe a redundância. então - a partir da possibilidade distante - os três homens se agarravam à segurança dos olhos da decepção doce, sentiam fome, olhavam as fachadas fechadas. e prosseguiam sem rumo, mas não tão infelizes nem tão famintos que não pudessem continuar.

5.18.2009

Variações sobre o mesmo tema

A pequena criança enfia a mão sem dó na areia, enfia na boca, com gosto. Com aquele mesmo risinho que puxou o rabo do gato ontem. Gato manco, despelado, que mordeu a criança, sem dó. Atropelado também o irmão mais velho, descuidado, com a mochila sempre aberta: dinheiro, celular e chaves. O óculos arranhado na parte superior esquerda: único sobrevivente. E não percebem. Todos ocupados e ausentes. Não percebem. Eu disse: só não tá tudo bem, Tenho que desligar. Imaginei. A mão da criança agora desce até meu Estômago, ácido, arranhando da areia. Que guarda tudo dentro dele, uma duas três semanas. E fico inchada de tantas coisas lá, sem náusea, sem sentir a ânsia. Redondo, redondo. Lixa até sangrar, descola a casca da grande cicatriz, jorra feito vinho. Larissa aperta meu estômago como uma esponja, porque a dor escorre pelos dedos dela. Larissa, ouça, a mãe chama. Ela corre e com a garra aberta, quer passar por minha garganta: entala. A desgraçada da mãe chama. Larissa, fecha a mão! A sua amiguinha de blusa verde tem um nariz falso, com aquela cara de cachorro magro, com muitos donos. Larissa, teu pai comeu sua amiguinha sem a blusa verde: e você vem aqui vingar o meu estômago. Sai Larissa. Fecha a tua mão de bailarina gorda e devolve a identidade do seu irmão.

5.17.2009

mochila, restaurante, ervilhas

1.
Casca de noz, trama metálica, seixo de rio, liga de platina e ouro. Dizem que cheirava a estanho e que era estranho o jeito de andar daquele garoto. Ele não percebia que enquanto se fechava, enquanto se transformava em uma concha vazia, sua mochila estava aberta. Esquilos, cavaleiros medievais, carpas gigantes, naves espaciais, pelos murais da cidade estão pendurados cartazes de procura de tudo que não encontrou ao voltar para casa.

2.
Haviam barricadas no calçadão, dessas feitas de fome e de uma estranha sensação de formigamento na ponta dos dedos e face. Muitos já haviam se perdido, os telefones não funcionavam e as vozes eram como lamentos ao meio dia. Do grupo de duzentas crianças que haviam se rebelado com a merenda, daquele bando que resolvera, em assembléia no play, sair pelo bairro (ou mundo real como a CDF marxista de aparelho e sardas no rosto dissera), sair em busca de comida, todos estavam prontos ao canibalismo, mas se contentaram com o único restaurante a quilo que não soubera da guerra civil.

3.
Elas não agüentavam mais. Não, não mais. Oh! Mundo tenebroso de talheres inoxidáveis, alfaces sem gosto e pratos de vidro temperado! Não havia consenso, não era regra, nem houve entendimento, o tapete verde que adornava o salão de festas era feito, apenas, de ervilhas suicidas.

11.02.2008

Atentado de matrícula

Atesto que o sr. Sharam Al-Fayed-FaKir, matriculado sob o número arábico 2001117895, foi aprovado com louvor no curso de Pós-Graduação em Atentados Terroristas, em nível de Sequestrador de Aviões, obtendo a nota máxima.

Abu Dhabi, 11 de setembro de 2001.