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5.05.2013
face
andei por aí procurando teu rosto. por toda a cidade eu andei por aí, procurando o teu rosto. apenas o teu rosto. eu vi os homens-lagartos, os manequins, os violonistas de esquina, atrás de teu rosto eu vi os hippies e yuppies se misturando na praça quinze, gravei cada ruga dos mendigos e velhinhas, e dos pombos alimentando velhinhas. procurei no show de rock a tua expressão de grito. vi os amigos se abraçando e entre eles não vi teu rosto. procurei nos noticiários, nos classificados, no obituário, debaixo das cabines de foto 3x4. li os poemas herméticos, os recadinhos de ensino médio, os guias de turismo. nos detalhes eu perdia teu rosto: a cárie, a espinha, o fio de cabelo, o contorno do queixo. de madrugada eu procurava teu rosto, cegamente tateando os ouvidos das paredes, esperando arranhar um que fosse o teu. vi as suspeitas de homicídio, as tatuagens de dragão, as pernas caminhando sem parar. ouvi todos os recados telefônicos esperando que a gravação dissesse teu rosto. fui ao teatro ver a tua máscara. procurei no arranhado do espelho, no arranhado do meu rosto. embora andasse por aí, não encontrei teu rosto. e continuava andando. talvez o teu rosto estivesse no rodapé de uma grande enciclopedia, desenhado nas costas de um irlandês ou na janela do vizinho. os ossos começaram a falhar de tanto andar por aí.
então paro. virando o concreto de minha andança, paro definitivamente. é só então que vejo, imóvel, o teu rosto saindo da noite para me procurar, perdendo-me, talvez para sempre, nas olheiras de uma estátua.
.:gabriel resende santos
9.04.2009
honey on bread
cariño,
por ora traduzido: honey,
acordei com fome. o alarme mal pensava em tocar quando meu estômago se corroía contra sua própria superfície. tal como o papel branco que se fecha na falta de escrita, tal como o papel das inúmeras cartas que amassei com o corpo, minha fome produzia um som de envelope amassado. nunca tive coragem de estrangular uma carta entre os dedos. porém, dormindo sobre as folhas que tramava noite afora, eu as inutilizava com marcas biográficas, confesso. não me interessa esconder impressões digitais, apenas me arrependo de não saber afastar as cartas do peso de minhas arestas disfarçadas em ossos. queria voltar no tempo e não posso, queria trocar você por cartas, mas seria outro o corpo de texto, outras seriam as entrelinhas. seria esse jogo de amnésia mais uma mentira, ou dessa vez estaríamos dispostos a jogar a nosso favor? não, a linguagem nunca me importou de fato. acordei pensando em você porque tenho fome de escrita (aquela em que traço seu contorno, aquela na qual ensaio encontros, aquela que é minha meditação profana e ruidosa, aquela que penetra onde o idioma não alcança). Sonolento, eu mastigava sua imagem muda. ela me sorria sem nada dizer, me aquecia como palha sobre brasa quente. like honey on bread. largo sorriso com gosto de palavras, aquelas que ficam melhores quando experimentadas. palavra sobre a língua. palavra sobre a pele. palavra sobre o travesseiro. palavra nua sobre o acarpetado de suas costas.
.:oberdan piantino
x? das cartas de edward para hopper, proposta literária baseada no projeto epistolográfico do blog incorrespondências, de marcio markendorf. proposta em avaliação sobre como experimentar a efetividade e o registro da escrita. imagem de edward hopper, "summer-interior", 1909.
8.14.2009
carta ao escrevente de cartas
.

cariño,
na falta de personagens livrescos, de quixotes e minotauros; na falta de algum destinatário fictício, dito esta carta para enviar àquele que a transcreve. como vai seu trabalho de escrevente? soube que encontrou um cliente fixo (desses acidentados que, por uma seqüela ou outra, necessitam de mãos e caligrafias emprestadas) e que paga bem. tem se alimentado? por que essa mania de revirar os olhos quando me importo com você? e por que no meio de voltas e voltas eles não se viram contra mim? sim, hoje você será dispensado mais cedo, serei o mais conciso possível. as perguntas são escudos que já não me interessam. enumero afirmações. quero seu sorriso. não me apaixonei pela sua letra, mas por um sorriso lançado de frente ao meu portão. tenho poucas histórias que recorto e colo. sou um corajoso a lutar contra minha covardia diária. sou tímido apenas quando me convém. minha sinceridade um dia irá ajudar minha escrita, por enquanto me sinto limitado. não busco tanto a beleza quanto as idéias, seja nos textos, seja nas pessoas. quero descobrir como lhe arrancar outro daqueles sorrisos. quero o riso cúmplice, de quem reconhece e brinca e joga e briga e compartilha os riscos. cataclismos são apenas metáforas. estou me fortalecendo e perdendo a entonação. o rebuscamento me largou, aquele sentimento de urgência também. tenho que buscar novas referências e livros. está na hora de reler todas as cartas. importa que esta chegue. só importam correspondências, ainda que nascidas no intervalo, ainda que feitas de sorrisos.
.: oberdan piantino
22ª das cartas de edward para hopper proposta literária em suspensão ("quando escrevo não penso", Juca)
imagem inicial - hotel room, hOPPER
imagem - cheshire cat, tENNIEL Image courtesy of special collections, Information Servives, University of Birmingham

cariño,
na falta de personagens livrescos, de quixotes e minotauros; na falta de algum destinatário fictício, dito esta carta para enviar àquele que a transcreve. como vai seu trabalho de escrevente? soube que encontrou um cliente fixo (desses acidentados que, por uma seqüela ou outra, necessitam de mãos e caligrafias emprestadas) e que paga bem. tem se alimentado? por que essa mania de revirar os olhos quando me importo com você? e por que no meio de voltas e voltas eles não se viram contra mim? sim, hoje você será dispensado mais cedo, serei o mais conciso possível. as perguntas são escudos que já não me interessam. enumero afirmações. quero seu sorriso. não me apaixonei pela sua letra, mas por um sorriso lançado de frente ao meu portão. tenho poucas histórias que recorto e colo. sou um corajoso a lutar contra minha covardia diária. sou tímido apenas quando me convém. minha sinceridade um dia irá ajudar minha escrita, por enquanto me sinto limitado. não busco tanto a beleza quanto as idéias, seja nos textos, seja nas pessoas. quero descobrir como lhe arrancar outro daqueles sorrisos. quero o riso cúmplice, de quem reconhece e brinca e joga e briga e compartilha os riscos. cataclismos são apenas metáforas. estou me fortalecendo e perdendo a entonação. o rebuscamento me largou, aquele sentimento de urgência também. tenho que buscar novas referências e livros. está na hora de reler todas as cartas. importa que esta chegue. só importam correspondências, ainda que nascidas no intervalo, ainda que feitas de sorrisos.
.: oberdan piantino22ª das cartas de edward para hopper proposta literária em suspensão ("quando escrevo não penso", Juca)
imagem inicial - hotel room, hOPPER
imagem - cheshire cat, tENNIEL Image courtesy of special collections, Information Servives, University of Birmingham
7.30.2009
carta do leitor
dear writer,
por que não aceitam imagens como comentários aos textos publicados nesse jornal de circulação duvidosa? onde está a liberdade de expressão nesse veículo de imprensa que a ninguém mais impressiona? e de que funcionam as palavras "tão bem colocadas" debaixo de imagens "tão bem recortadas" em cadernos "tão bem dobrados", se efetivamente não há posição crítica por parte dos colunistas? e que mania é essa de colocar termos entre aspas? a quem serve esse narcisismo da auto-exposição do que "pode ser, como pode não ser"? onde está a voz dos que perderam (se realmente perderam alguma coisa)? e por que tantos consideram-se destinatários de colocações que nada nomeiam, que nada dizem? desde quando o jornalismo se transformou na simples articulação do maior número de frases de efeito o possível? a ideia é vender? é uma máquina de colar palavras o que se esconde no parque gráfico da editora? faz tudo parte da conspiração? quando afinal encontrarei uma afirmação clara, direta e lúcida no caderno de política? e o horóscopo, por que nunca encaixa com a data certa? afinal de contas, por que minha carta não será publicada com meu nome? é pra isso que serve toda essa estrutura covarde, para fazer do meu grito de guerra, literatura?
.: oberdanpiantino
(21ª das cartas de edward para hopper, proposta literária em constante mutação. imagem: tela branca esquecida pelo pintor em sua casa de veraneio).
5.11.2009
carta em fragmentos
cariño,
deixo as palavras se desprenderem e agora neva. alguns crêem que é carvão o que cai do céu, muitos se aquecem e, eu, achando que posso assistir o espetáculo a distância, torço para que vejam boas imagens entre as chamas da lareira. faz nove semanas, quatro dias e onze horas desde que senti: o vento debridava minha pele.
....
tenho corrido de uma biblioteca à outra oferecendo meu trabalhado de copista. vim em busca de uma direção e só fiz me espalhar. faz exatamente sete semanas e nove horas desde que se confirmou: minhas arestas eram lapidadas por olhos estranhos, aquela urbe de bibliófilos queria fazer de mim algo que não era.
....
no escritório do segundo andar da casa que aluguei (você gostaria do sol que entra todo o fim de tarde), sentado em direção a janela, continuo a exercitar-me com as iluminuras do livro de você soube esconder em minha bagagem. por hora faltam as tintas sofisticadas, mas os contornos das letras continuam sendo meu forte. faz quatro semanas, seis dias e duas horas que o rastro de fuligem não deixava enganar: ou reagia, ou só me encontraria depois de abrir um pacote lacrado.
....
me descubro arrogante por achar que poderia lutar contra minha história, ao invés de ter como aliado o que em mim vem se desenhando a tantos anos. enquanto me perdia na arrumação dos móveis, enquanto brigava comigo mesmo por não suportar um pouco de saudade, descobri que não tenho sabido ler seus quadros, nem seguir o improviso que me faria alisar seus cabelos em plena ventania. faz três semanas, um dia e catorze horas que descobri: as garras de um puma canadense não fariam tanto estrago quanto o ciclone que passou no oceano. só me culpo por não ter me dado uma semana de folga.
....
passei o dia procurando uma forma de sustentar minha falta de luxo, por isso esqueci de ligar na hora marcada. tenho tido trabalho em juntar os pedaços que caem no quintal (o que não promete trazer nenhum retorno, mas é o mínimo que posso fazer). faz um dia e oito horas que, ao olhar o sol que se punha detrás da casa - um sol tão completo, tão claro e marcante que pouco importara a noite tenebrosa que o precedera - eu sai da intuição para me dar a liberdade de decidir o que fazer com o que sentia: não há dor, não há desespero, os flocos se dispersam porque não é saudável viver coberto de uma camada espelhada, onde cada um decide ver o que lhe falta.
....
esse é o último trecho que escrevo antes de selar a carta. quando eu voltar, fará algum tempo desde a última vez que você me viu, teremos um estranhamento costumeiro com algumas mudanças que em mim poderá perceber, mas não duvide do que escolhi e do que poderei dizer: está na hora de rir no escuro.
con cariño,
Edward.
p.s.: hasta otro, creo no necesito más entregarme por trechos.
.: oberdan piantino
florianópolis, 11 de maio de 2009
(20ª das cartas de edward para hopper, proposta literária
baseada no projeto epistolográfico do blog incorrespondências,
de marcio markendorf e nas correspondências de ana cristina césar,
imagem de hopper, "pennsylvania coal town", 1947).
deixo as palavras se desprenderem e agora neva. alguns crêem que é carvão o que cai do céu, muitos se aquecem e, eu, achando que posso assistir o espetáculo a distância, torço para que vejam boas imagens entre as chamas da lareira. faz nove semanas, quatro dias e onze horas desde que senti: o vento debridava minha pele.
....
tenho corrido de uma biblioteca à outra oferecendo meu trabalhado de copista. vim em busca de uma direção e só fiz me espalhar. faz exatamente sete semanas e nove horas desde que se confirmou: minhas arestas eram lapidadas por olhos estranhos, aquela urbe de bibliófilos queria fazer de mim algo que não era.
....
no escritório do segundo andar da casa que aluguei (você gostaria do sol que entra todo o fim de tarde), sentado em direção a janela, continuo a exercitar-me com as iluminuras do livro de você soube esconder em minha bagagem. por hora faltam as tintas sofisticadas, mas os contornos das letras continuam sendo meu forte. faz quatro semanas, seis dias e duas horas que o rastro de fuligem não deixava enganar: ou reagia, ou só me encontraria depois de abrir um pacote lacrado.
....
me descubro arrogante por achar que poderia lutar contra minha história, ao invés de ter como aliado o que em mim vem se desenhando a tantos anos. enquanto me perdia na arrumação dos móveis, enquanto brigava comigo mesmo por não suportar um pouco de saudade, descobri que não tenho sabido ler seus quadros, nem seguir o improviso que me faria alisar seus cabelos em plena ventania. faz três semanas, um dia e catorze horas que descobri: as garras de um puma canadense não fariam tanto estrago quanto o ciclone que passou no oceano. só me culpo por não ter me dado uma semana de folga.
....
passei o dia procurando uma forma de sustentar minha falta de luxo, por isso esqueci de ligar na hora marcada. tenho tido trabalho em juntar os pedaços que caem no quintal (o que não promete trazer nenhum retorno, mas é o mínimo que posso fazer). faz um dia e oito horas que, ao olhar o sol que se punha detrás da casa - um sol tão completo, tão claro e marcante que pouco importara a noite tenebrosa que o precedera - eu sai da intuição para me dar a liberdade de decidir o que fazer com o que sentia: não há dor, não há desespero, os flocos se dispersam porque não é saudável viver coberto de uma camada espelhada, onde cada um decide ver o que lhe falta.
....
esse é o último trecho que escrevo antes de selar a carta. quando eu voltar, fará algum tempo desde a última vez que você me viu, teremos um estranhamento costumeiro com algumas mudanças que em mim poderá perceber, mas não duvide do que escolhi e do que poderei dizer: está na hora de rir no escuro.
con cariño,
Edward.
p.s.: hasta otro, creo no necesito más entregarme por trechos.
.: oberdan piantino
florianópolis, 11 de maio de 2009
(20ª das cartas de edward para hopper, proposta literária
baseada no projeto epistolográfico do blog incorrespondências,
de marcio markendorf e nas correspondências de ana cristina césar,
imagem de hopper, "pennsylvania coal town", 1947).
5.10.2009
carta mestra

cariño,
vamos fingir, sim, deliberadamente, que me encontro em um labirinto de cartas. do drama passemos a farsa, da tragédia à comédia. quero é achar graça dessa mania de coisa séria, de palavras difíceis e grafismos em espiral. o minotauro já decidiu que vai fazer o texto. ariadne, ela vai tricotar os figurinos, em cena e durante toda a temporada. não temos tempo para planejar o cenário, porque dédalos foi demitido e o que não falta é tapume e sucata. me pergunto porque tanta cenotécnica naquele teatro se a quarta parede fica sempre aberta? nessa história teseu não entra, ele é estrangeiro e só vamos falar a língua corrente. o que interessa é ter casa cheia e conseguir boas risadas da platéia. chamamos você aqui para nos ensinar improvisos e nos ajudar a criar imprevistos. vamos fingir que todos queremos sair do labirinto, mas ficamos montando paredes de envelopes para dificultar a vida. a graça é que os envelopes sempre caem e a ação é montá-los para deixá-los cair. a iluminação vai ser fixa, constante, não queremos apelar para sentimentos, nem forçar qualquer entendimento. foi uma reunião de elenco difícil, mas decidimos que não faz mal seguir o que acredito: renego todo o mito porque quero o sorriso ao invés da fala, o possível no lugar do desejável, o futuro próximo sem subjuntivo. eles só não entenderam meu plano subversivo, fingimos que não sabemos que fingimos quando encenamos apenas para estarmos juntos. já temos clara a primeira cena. alguém tira a caneta da minha mão e damos risadas de quem sabe exatamente qual a próxima ação do outro.
E.H.
ps.: não faremos ensaios. se quando vier, parecer difícil entrar, ou tiver receio de não saber sair, use esta carta mestra. me chame, vamos chutar umas paredes, dar risadas. só não me permita criar mitos enquanto trabalho cariños.
.: oberdan piantino
florianópolis, 09 de maio de 2009
(19ª das cartas de edward para hopper, proposta literária
baseada no projeto epistolográfico do blog incorrespondências,
de marcio markendorf e nas correspondências de ana cristina césar,
imagem de hopper, "sun in a empty room", 1914).
4.09.2009
carta de amor pode ser música
cariño,
me lanço no desespero de uma proximidade qualquer. me lanço na esquizofrenia de vestir a cada carta uma máscara. me lanço no risco de não ter meu afeto ouvido. me lanço... me lancei de tantos jeitos e agora me relanço, mergulho... ouço o som frenético da caligrafia sobre o papel, murmúrios da escrita misturada com desejo, ecos da solidão que sopra palavras em meus ouvidos. sua voz entre cartas, nossa voz na beleza dissonante de quem não idealiza e não realiza, ainda. agora não. espere. tenha paciência. o que ouço me dá esperanças mas um tanto mais de solidão. ainda não. e me reinvento para mais uma carta, me relanço, mergulho...
... refrão ...
Eu amo uma garota chamada mary hopper, mas mary não demonstra o mesmo. se me ama, eu não vejo. sim, pode ser coisa da minha mente, mas mary nunca me disse que tem outro alguém, nem que está insegura quanto ao que sente ou quer. bem sei que ela mudaria seu mundo por mim, vi isso em seu primeiro sorriso. mary mirava el mar y... mudaria tudo se soubesse meu nome, mas mary nunca me perguntou o nome. mary se protege me dando pistas com as quais sempre vacilo. não posso dizer que minha sede não ameace seu mundo, porque não sei querer bem sem querer muito. apenas sei que, se mary me olhasse, a faria me amar na velocidade de um mergulho...
beloved,
você olha as ondas e medita sobre coisas que eu adoraria saber. eu, entre o azul e o verde, tenho toda a intensidade de quem teve a coragem de saltar de cabeça e não sabia que nadava tão bem. quando volto para me secar ao sol, ainda respiro fundo a falta de ar e faço melodias mudas de quem não pode falar. de alguma forma digo, yo creo que usted me gusta. você não responde. torço para que as ondas digam tudo quando cantam venga, venga, venga para eso mar profundo, pero cubierto de pasión. mergulho...
ps.: mary, jesse, edward, a superfície que refrata por vezes queima a memória do escritor com a mesma sutileza com que atravessa o leitor com luvas de pelica. vacilo quando sinto em brasa o toque que queria ser inundação. não quero perder nenhum de vocês, mas sofro de esquecimento e um tanto de irrealidade. uma carta de amor pode ser música. mágica melodia do mergulho insistente.
.: oberdan piantino
florianópolis, 9 de abril de 2009
(14ª das cartas de edward para hopper, proposta literária
baseada no projeto epistolográfico do blog incorrespondências,
de marcio markendorf e nas correspondências de ana cristina césar,
imagem de hopper, "sea watches", 1963
3.28.2009
cartas em guardanapos
mon bouffon,
volto todos os dias ao mesmo cenário e não me importo de encontrar um cigarro fazendo vez de distração em sua boca nervosa. você não é um boneco de cera que inventei no calor da saudade e eu tenho todo o tempo do mundo ao seu lado (não me engane, sei que essa palidez é maquiagem, não veio de você e sai com água). somos tão reais quanto esse cenário e os diretores no contra-campo. somos reais e não estamos longe. não posso desmanchar a cara blasé, mas acredite, estou feliz de marcar postura nessa conversa sempre suspensa. acho que amanhã servirão peixe. temos o mar às costas e ouvi barulho de barcos nos cais, não poderemos comer porque estragaria a cena, mas teremos peixe à mesa! não foi difícil conseguir esse papel, porque nele coloco tudo o que sou e não me vejo fingindo ser o que não sou. ontem me elogiaram a espontaneidade, peco sempre no figurino, mas disseram que minhas mãos estáticas sobre o quadril expressavam o vigor de dançaria flamenca. acredita? logo eu? façamos como sempre. eu roubo guardanapos e com eles deixo recados sobre a mesa ou debaixo da porta do seu camarim. você lê e se livra deles deixando-os cair entre as madeiras do deck ou simplesmente os engole. não coloque nos bolsos! as trocas de figurino acontecem a qualquer hora e estaremos perdidos se nos descobrem. são tempos difíceis e aqui pelo menos unimos o útil ao agradável, um trocado e boa companhia. sei que de canto de olho você me vê enquanto rememora minhas palavras. não tenho boa escrita, mas sei roubar boas metáforas entre os livros do cenário da biblioteca de monsieur navigateur. como era mesmo aquela do minotauro passando cartas entre biombos? acho que descobri uma brexa na segurança, não existem vigias debaixo do pier, que te parece? hoje não pensei em nada bonito para escrever, mereço descanso e o importante é termos algo em comum para sustentar a espera enquanto não atrapalhamos la grand mise en scène. catei um trecho de um escritor bárbaro que ana iria gostar e se encaixará bem nas análises grafológicas que você tanto gosta. não sei se você já pensou nisso, mas não temos que escolher partido nem ficar em estado neutro. não somos bonecos de cera e seria mais fácil nos desmancharmos a sermos capazes de nos proteger eternamente nessa incomunicabilidade, ainda necessária, mas frágil e pequena diante de tudo que somos e sentimos fora do teatro. e toda essa loucura de se sustentar imóveis sobre as marcas de cena do restaurante, da fábrica, da escola, do licée de l'art, é até divertido porque temos gana de viver e agora topamos tudo. algo em mim marca, coeur silencieux, uma contagem regressiva. acho que no dia que ouvir a sua voz e descobrir o que se esconde por detrás du mystère rouge de ses yeux et sa bouche não me agüentarei de pé, perderei o cachê do dia.
---
"minha biografia poderá ser impressa, mas nunca expressa; poderá fazer parte da sua e continuará incompleta; poderá nem ser lembrada. que ao menos seus vestígios criem literatura. a infamia não mudará o que senti. ao olhar suas palavras mudas em vermelho, minha face enrubesceu. un des amours de ma vie est vivant" (jovem escritor de memórias fictícias, outono de ano desconhecido).
.: oberdan piantino
florianópolis, 28 de março de 2009
(18ª das cartas de edward para hopper, proposta literária
baseada no projeto epistolográfico do blog incorrespondências,
de marcio markendorf e nas correspondências de ana cristina césar,
imagem de hopper, "soir bleu", 1914).
3.20.2009
carta de papel

dear,
um barco de papel. envio esta carta com as marcas das dobras que farão dela um frágil barco de papel, como neste em que me vejo a enviar notícias. As responsabilidades na empresa aumentaram. os grevistas falam em paralisação total, os acionistas em demissão em massa e, eu? eu desconverso dizendo que estão sendo desenvolvidos estudos técnicos quanto ao que pode ser concedido sem prejudicar a produção mínima necessária à manutenção do faturamento médio. minhas roupas estão apertadas e a camisa vinho que tia Margaret enviou descoloriu. você achou meu sapato de verniz no closet do quarto de visitas como lhe pedi? o trânsito aqui é infernal, pára-se por qualquer coisa. você acredita que um taxista resolveu descer do veículo porque reconhecera a imagem de seu avô em um bulldog castanho claro que passeava disperso com sua dona de 80 anos? pois é, yeeh, o congestionamento foi de 9 quilômetros. sorte nossa que o bulldog se ofendeu com o excesso de intimidade que o taxista se deu ao tentar abraçá-lo e enxotou o infeliz para seu devido lugar. a fila daria a volta ao mundo a essa hora. dobre na seqüencia que anotei nos cantos da folha. as letras "F" e "D" diferenciam as dobras para fora das dobras para dentro. fiz tudo de errado quando cheguei, mas já estou preparado para a próxima. a mão inglesa aqui existe! mas só entre as 2 e as 4 da madrugada. dizem que é coisa do álcool, mas é tão pontual a troca de mão que até parei com os porres noturnos para apreciar melhor a coreografia. envia pelo Jonh uma atadura de algodão da farmácia, aquela em frente a praça, as que eu comprei aqui me dão coceira. não se preocupe, não foi nada de grave. lembrei da música que você cantava pra mim nas noites de insonia, anoto abaixo minha nova versão da letra. já imagino você cantando enquanto faz ondas para nosso barquinho tremular na banheira (use a do andar de cima, gasta menos água).
...
durma, cariño, durma e me tome em sonhos como lhe tenho agora nos braços. durma, cariño, durma. braços feito a traço, mas ainda abraços. durma, cariño, durma. a essa hora até os monstros encontram morpheus e com ele fazem valsa. durma, cariño, durma. não é porque estou prestes a chegar que você precisa arrumar a casa e vestir-se em festa. durma, cariño, durma. para entrar no mundo dos sonhos, a condição é esta. durma, cariño, durma. deixe um mar anil espalhar-se além do cais. durma, cariño, durma. é feita de nuvens sua cama. durma, cariño, durma. para não cair na água acompanhe o balanço. durma, cariño, durma. que seja o seu tronco música. durma, cariño, durma. seu abrir e fechar de olhos, compasso. durma, cariño, durma. é seu peso sobre meu colo que me dá descanso. durma, cariño, durma. lanço-me logo atrás, olhos abertos debaixo d'água.
.: oberdan piantino
(17ª das cartas de edward para hopper, proposta literária
baseada no projeto epistolográfico do blog incorrespondências,
de marcio markendorf e nas correspondências de ana cristina césar,
imagem de edward hopper, "ground swell", 1939).
2.28.2009
carta em pedras

cariño,
sinto que estou quebrando por dentro e isto já não promete ser a cura. é tarde para curas, porque não posso me chamar de doente quando o que sobrou de mim são apenas cascas e feridas. o que resta é a parte não humana, aquela que sobrevive no áspero conforto das palavras, que já não pode viver, porque é humana demais para ser eternamente solitária. sobrevivo em palavras, respiro, transpiro, mas não posso acreditar que vivo. se quero voltar a ser quem era antes, se quero ter uma chance de estar com você, terei que me reinventar. tenho poucos segundos para contar minha história. mais um vento morno e me transformo completamente em pedra.
é preciso se fazer da mesma matéria que reveste as ruas, do mesmo ferro que sustenta as pontes, do mesmo concreto que eleva muros e arranha-céus, para sobreviver nessa cidade de mármore. belo e frio mármore dos condomínios de luxo.
é aos poucos, sem perceber, que deixamos de ver imagens. operários de multinacionais, pedreiros de arranha-céus, vendedores de mercadorias e alimentos nas feiras, agora sou parte da massa que fecha os olhos e já não vê quem ama no fundo da memória, pensa na pessoa amada não vê seu rosto, dorme e seu cariño já não faz parte de seus sonhos. maldição, de certo é a fuligem das chaminés e os resíduos que escapam das construções o que nos pesam o estômago. sei que essa doença está no ar, sinto-a na pele.
você não veio me ajudar. prefiro acreditar que foram extraviadas as cartas de socorro. nos jornais, fala-se de armazéns incendiados, de terremotos, inundações e guerras, mas pouco importa em quais catástrofes foram destruídas as cartas. você não veio. eu não posso me mexer e você não veio.
seria preciso mover o mundo para chegar a tua boca, porque é tarde, porque nenhum dos lados da guerra quer dar o braço a torcer, porque não posso pensar em amor quando há um mundo para ser reconstruído e corpos atirados nas ruas. seria preciso um encanto, sí cariño! um encanto para transformar pedra em argila. e da argila, humano. e da carne humana, novamente, amante.
hoje parto em direção à nossa praia, primeiro paso de lo encanto. não se pergunte como, também não sei como alguém que tem pés de barro, pernas de granito e tronco de quartzo poderá atravessar o continente e chegar até você, segundo paso. basta que aceite meu querer, preciso ter meu corpo transformado na mágica de dobrar-se sobre o teu, tercero paso. calafrios, aquela batida anormal no peito, aquele fôlego que parece ser o último, o que mais quero é sentir que vivo no risco de morrer de cariños.
ainda que tenha a paciência como aliada, pois ao menos ela ainda mora em mim, meu único medo é achegar-me à margem e descobrir como as estátuas olham o mar quando solitárias. sin usted yo no me salvo. então, quando estiverem meus sedimentos aparentemente conformados na superfície dessa solidão sem nome, pela ajuda do vento ou da maré, me jogarei ao mar da forma que for possível. sei que se romperão em pequenas pedras atiradas em mergulho, as fissuras que tanto rangem e doem. como dói, cariño. restará o sonho de sentir que, num dia qualquer, você atravessará a baía sobre meus pedaços adormecidos. puente sobre aguas tranquilas. durante a caminhada, irá reconhecer minha letra. inscritas sobre as pedras estarão todas as cartas que escrevi para você.
.: oberdan piantino
(8ª das cartas de edward para hopper, proposta literária
baseada no projeto epistolográfico do blog incorrespondências,
de marcio markendorf e nas correspondências de ana cristina césar,
imagem de edward hopper, "gloucester harbor", 1926).
sinto que estou quebrando por dentro e isto já não promete ser a cura. é tarde para curas, porque não posso me chamar de doente quando o que sobrou de mim são apenas cascas e feridas. o que resta é a parte não humana, aquela que sobrevive no áspero conforto das palavras, que já não pode viver, porque é humana demais para ser eternamente solitária. sobrevivo em palavras, respiro, transpiro, mas não posso acreditar que vivo. se quero voltar a ser quem era antes, se quero ter uma chance de estar com você, terei que me reinventar. tenho poucos segundos para contar minha história. mais um vento morno e me transformo completamente em pedra.
é preciso se fazer da mesma matéria que reveste as ruas, do mesmo ferro que sustenta as pontes, do mesmo concreto que eleva muros e arranha-céus, para sobreviver nessa cidade de mármore. belo e frio mármore dos condomínios de luxo.
é aos poucos, sem perceber, que deixamos de ver imagens. operários de multinacionais, pedreiros de arranha-céus, vendedores de mercadorias e alimentos nas feiras, agora sou parte da massa que fecha os olhos e já não vê quem ama no fundo da memória, pensa na pessoa amada não vê seu rosto, dorme e seu cariño já não faz parte de seus sonhos. maldição, de certo é a fuligem das chaminés e os resíduos que escapam das construções o que nos pesam o estômago. sei que essa doença está no ar, sinto-a na pele.
você não veio me ajudar. prefiro acreditar que foram extraviadas as cartas de socorro. nos jornais, fala-se de armazéns incendiados, de terremotos, inundações e guerras, mas pouco importa em quais catástrofes foram destruídas as cartas. você não veio. eu não posso me mexer e você não veio.
seria preciso mover o mundo para chegar a tua boca, porque é tarde, porque nenhum dos lados da guerra quer dar o braço a torcer, porque não posso pensar em amor quando há um mundo para ser reconstruído e corpos atirados nas ruas. seria preciso um encanto, sí cariño! um encanto para transformar pedra em argila. e da argila, humano. e da carne humana, novamente, amante.
hoje parto em direção à nossa praia, primeiro paso de lo encanto. não se pergunte como, também não sei como alguém que tem pés de barro, pernas de granito e tronco de quartzo poderá atravessar o continente e chegar até você, segundo paso. basta que aceite meu querer, preciso ter meu corpo transformado na mágica de dobrar-se sobre o teu, tercero paso. calafrios, aquela batida anormal no peito, aquele fôlego que parece ser o último, o que mais quero é sentir que vivo no risco de morrer de cariños.
ainda que tenha a paciência como aliada, pois ao menos ela ainda mora em mim, meu único medo é achegar-me à margem e descobrir como as estátuas olham o mar quando solitárias. sin usted yo no me salvo. então, quando estiverem meus sedimentos aparentemente conformados na superfície dessa solidão sem nome, pela ajuda do vento ou da maré, me jogarei ao mar da forma que for possível. sei que se romperão em pequenas pedras atiradas em mergulho, as fissuras que tanto rangem e doem. como dói, cariño. restará o sonho de sentir que, num dia qualquer, você atravessará a baía sobre meus pedaços adormecidos. puente sobre aguas tranquilas. durante a caminhada, irá reconhecer minha letra. inscritas sobre as pedras estarão todas as cartas que escrevi para você.
.: oberdan piantino
(8ª das cartas de edward para hopper, proposta literária
baseada no projeto epistolográfico do blog incorrespondências,
de marcio markendorf e nas correspondências de ana cristina césar,
imagem de edward hopper, "gloucester harbor", 1926).
2.26.2009
carta à mademoiselle vida

ma chérie,
tentei esconder de você, tentei enganar a todos, mas não posso manter em segredo o que carrego estampado no rosto. sua intuição está correta, estou apaixonado como nunca antes, apaixonado pela vida. nome engraçado, não é? vida, é assim que todos a chamam.
era uma dessas noites abafadas quando a encontrei pela primeira vez. eu andava pela calçada em direção à lanchonete quando a vi, desde longe. suas costas chamavam mais atenção que os letreiros e insinuavam... foi fácil se perder naquelas curvas.
não sei como cheguei, quando dei por mim já estava sentando em uma dessas cadeiras que ficam em frente ao balcão, bem ao seu lado. le garçon, que sempre me atendia com poucas palavras, não sabia como conter o riso diante da falta de jeito com que eu procurava disfarçar minha vertigem. o chapéu devia estar torto e eu já não sabia o que me levara ao restaurante, nem era capaz de lembrar o nome do drink de todas as noites.
ele me fez o favor de servir qualquer coisa aonde pudesse enfiar os olhos. e era de lá, do fundo da xícara de café que eu procurava prever os movimentos dela para aproveitar uma chance de encará-la nos olhos. não tive coragem de olhá-la diretamente, não naquela noite. e foram muitas as noites em que essa mesma cena se repetiu.
eu mal saía do hotel e já me via sentado ao lado daquele mesmo perfume, daquele mesmo braço, daquela mesma presença sem rosto pela qual me encantara e cujos os lábios eram a promessa de êxtase escondida detrás do horizonte da minha timidez. eu já me apaixonei por muitas jovens, em muitos dos restaurantes que passei a freqüentar depois que teve início minha jornada dupla no jornal e na repartição, mas com a mademoiselle vida é diferente, por isso não lhe contei de início.
mas agora preciso da sua ajuda, algo aconteceu que me impede de encontrá-la e talvez mandando cartas para você, uma delas se extravie até ela... é desespero, eu sei, mas que outra chance se tem quando não se sabe o endereço, nem mesmo o sobrenome da pessoa amada?
não sei como explicar, mas da pouca memória que me orgulho, o que lembro é isso. tinha tomado o caminho oposto àquele que geralmente pego para ir à lanchonete. seguia em direção à estação de trem, porque não suportava mais ter de me esconder dela, ainda mais quando tão perto. chovia naquela noite e só posso ter certeza que, mesmo andando em linha reta para o mais longe possível, parei diante do balcão cujas ranhuras aprendi a contar de memória e olhos fechados. acho que dei a volta ao mundo.
sentei decidido a conquistá-la, mas o medo... com a ponta do dedo a toquei pela primeira, e última, vez. o impacto de seu toque foi súbito como um acidente de trânsito. nisso estava o prazer, porque era mínimo em um universo de contatos possíveis, mas incontestável. para ser definitiva, essa aproximação precisava de uma troca de olhares cúmplices. respirava alto e olhava seu rosto, tossia em seco e procurava seus olhos. ela não olhava para mim. talvez olhasse tudo de um reflexo que eu não alcançava, talvez previsse o futuro. é provável que fazia suas consultas no esmalte das unhas da mão esquerda. aquelas unhas vermelhas eram toda a sua pátria, e eu ali, tentando um pouso forçado em terras estrangeiras.
ainda sinto arrepios quando penso no que se sucedeu. ela me olhou com um leve virar de rosto e foi então que me não a vi mais. nunca mais vi vida. um calor percorreu meu corpo da ponta do dedo até o peito e ela se perdeu de vista. foi assim que ela entrou, para nunca mais sair, de minha memória, do meu destino e de ma vie. que essa obsessão seja incurável e que pelo menos uma de minhas cartas chegue até ela.
.: oberdan piantino
(16ª das cartas de edward para hopper, proposta literária
baseada no projeto epistolográfico do blog incorrespondências,
de marcio markendorf e nas correspondências de ana cristina césar,
imagem de edward hopper, "nighthawks", 1942).
2.21.2009
carta de falecimento

beloved,
hoje recebemos a notícia da morte de Peter. sim, por mais inacreditável que possa parecer, seu irmão também estava na guerra. quis o destino que, depois de catorze anos de buscas pelo paradeiro do mais velho dos Howards, ele chegasse ao fim tão perto de você. tão perto honey, tão próximo que nunca mais poderá ser encontrado.
o cargueiro em que ele estava foi bombardeado a 4,5 quilômetros da base de operações em que você serve, isso enquanto você pensava estar protegendo-o como você pensava ser capaz de nos proteger enquanto nos deixava. fico imaginando seu rosto agora, a expressão do choro preso nesse coração de soldado. se eu estivesse aí, meu silêncio diria tudo, e receberia suas lágrimas com o mesmo calor que embalaria sua cabeça em meu colo.
não, não me julgue. se você se ofende com a ponta de alegria que se insinua em minha caligrafia, é porque não sabe o quanto chorei nos segundos que antecederam a notícia do falecimento.
você disse para eu não fazer isso, mas costumo lhe esperar da varanda, com minhas roupas de passeio, como se a qualquer momento sua figura fosse surgir entre os morros. um dia, pensei ter visto você quando quem se aproximava era um dos mensageiros da morte. assim chamamos os militares que percorrem nossas pequenas cidades para ceifar o que resta de esperança em famílias inteiras. reconheci, de longe, sua expressão de, I am only fulfilling orders
era certo que vinha em direção de casa e, por isso, tremi. quando finalmente parou em frente a varanda, meu vestido já encharcado, meu rosto abaixado e meus olhos cerrados, mostravam que não era preciso esperar a carta para que eu soubesse que o soldado da casa morrera em combate. he passed way with honour, mas não me interessavam os floreios se todas as palavras se resumiam no envelope negro com o brasão do exército marcado em cera quente. se sua mãe estivesse viva, choraríamos juntas sua morte, sem saber que era Peter o real destinatário de nossas lágrimas.
tudo o que falo, é para lhe dar a chance de se despedir de seu irmão antes que a guerra nos obrigue a mais despedidas... dizem que são bonitas as dançarinas dos bares de caserna... entre nesse mar e tenha certeza que é o mesmo mar que toca Peter. ore por ele como se estivesse abraçando seu corpo, encha os pulmões dele de seu espírito e deixe-o ir. que encontrem, juntos, a paz.
mary falou algo que, por imaturidade minha, não permite que esta carta termine por aqui. ela acredita que quando você, my soldier, my man, voltar, que quando estivermos juntos, e cada vez mais próximos, será o fim. para não discordar, falo de como a distância me faz prenhe de cartas e nisso nos aproxima. ela me fuzila quando diz, taxativa, proximities kills brothers, fiancés and letters.
minhas cartas não estão em guerra para que eu as deixe morrer, porque nem o governo, nem as leis, nem mesmo seus bobos defeitos, que de perto são tão evidentes quanto os meus, podem me tirar o prazer de escrevê-las. mesmo colocando-as em perigo, espero seu retorno na varanda de casa. ela é nosso mundo seguro quando lembramos de nos olhar nos olhos.
.: oberdan piantino
(15ª das cartas de edward para hopper, proposta literária
baseada no projeto epistolográfico do blog incorrespondências,
de marcio markendorf e nas correspondências de ana cristina césar,
imagem de edward hopper, "summertime", 1943).
1.18.2009
carta de amor pode ser imagem

cariño,
não há nada escrito nesta carta, porque não é com palavras que quero saciar a falta que, já não tenho dúvidas, você sente. não tenho nada a dizer. ao invés disso, chego antes do corpo de texto com imagens que comprei durante a viagem. os cartazes, os postais, as pinturas com cenas rurais dessa grande metrópole, os guias turísticos, são imagens que compartilho com você para dar boca às máscaras que se tocam sem reconhecerem-se duplas; para imaginar proximidades e para distrair a saudade. e porque quero tecer fios de contato e gozo cada vez que você me receber em meio as contas do mês e as propagandas impressas a quatro cores em papel especial.
passei a viagem de volta me preparando. colei, una a una, as imagens sobre o corpo. na coxa, aquela em que vi meu desejo sentado na areia a escrever cartas. na canela, aquela em que me abasteço com sua memória. nas costas, aquela em que confesso meu medo do gran hermano. no peito, aquela em que se abrem as portas. no antebraço, aquela em que me desarmo. na barriga, aquela que retrata, em minha fuga, a fome que me faz procurar-te a cada esquina.
retorno a sua casa meses antes do prometido. sobre as pontas dos pés, entro em seu quarto e te encontro dormindo. é natural seu sono leve, sono de quem se cansou da espera e se conforta em um breve esquecimento. não me culpe, me agradeça, pois foi essa longa viagem o que lhe permitiu encontrar-me em sonhos para não nos desencontrarmos em vigílias. para não nos desencontrarmos em vigílias. a insônia que lhe agarrou os olhos foi a mesma que lhe pesou as pálpebras.
sento-me na cama e, após distrair-me com suas armas e escudos largados pelo chão, pego a mão que você guarda mais próxima do peito e me acaricio os lábios. beijo-a lentamente, a palma e o inverso. você se desperta, encontra meus olhos, respira fundo e me ama em silêncio. não preciso dizer palavra para que você saiba que lhe convido a contemplar mais uma imagem, dessa vez comigo, dessa vez com sua mão sobre a minha.
atravessamos a casa, descalços enquanto nos enlaçamos os dedos. descalços sobre o tapete de fios macios. descalços sobre o piso de madeira. descalços sobre os cacos da louça que não teve culpa da minha partida. descalços a contornar móveis. descalços, lado a lado, com meus passos a sussurrarem izquierda, derecha, esquerda, e o seus a acompanharem com right, left, direita. descalços a tocar calcanhares. descalços sem largar as mãos. descalços sem dizer a, para não dizer b, para não estragar tudo. descalços quase a chegar na areia da praia. descalços...
é com este quadro esboçado em carta que cubro seus olhos de cariños para estarmos próximos, mesmo longe. assim acredito que você não precisará mais procurar-me na paisagem que se recorta em sua janela, e não precisará mais ver-me longe de tua cama. deseo hacer amor, mesmo que em cartas. e é tão simples. uma carta de amor pode ser imagem, muda e arrebatadora.
.: oberdan piantino
(7ª das cartas de edward para hopper, proposta literária
baseada no projeto epistolográfico do blog incorrespondências,
de marcio markendorf e nas correspondências de ana cristina césar,
imagem de edward hopper, "morning sun", 1963).
1.05.2009
cartas em mapas

cariño,
os leitores me escrevem cartas. mostram-se indignados, muitas das vezes, com o que chamam de "indefinições", "falta de clareza", e "uso desnecessário de termos não compreendidos pelo grande público". alguns, em surto de censura e clarividência, me acusam de não saber quem sou, de preferir correr riscos a ter a certeza de ser bem compreendido. mas o que sou quando rascunho cartas, senão um escritor a trafegar por palavras? quando pego carona em carros de amigos para voltar a cidade, senão passageiro? quando assisto um filme no cinema da avenida à beira-mar, senão espectador? o que mais poderia ser, se essas são as únicas certezas que posso ter? são pequenos momentos, memórias, imagens que se vão para não atrapalhar as que virão. la fila marcha. marcham as imagens como singelas verdades vestidas de nuvem debaixo de capas pretas.
mas hoje acordei - susto y miedo - de um sonho que me fez pensar em quão delicadas são essas infinitas possibilidades de ser humano: estava ferido no calcanhar e tinha a cama como a única certeza de que não seria o piso meu leito e fim. da ferida jorrava um líquido viscoso. sangre y pus. que banharia toda a cama se algo em mim não houvesse mudado para fazer-me nueva persona. fiz contorcionismos para pegar gaze, esparadrapo e frascos de assepsia, e sobre o colo os organizei. entre dores e desconfortos fiz um curativo. me surpreendeu o fato de que, nesse sonho, fui enfermo e enfermeiro, curador e ferido; fui dois sem deixar de ser um.
assim que acordei fui à nona avenida para buscar o jornal onde sua carta-resposta deveria me esperar. estava em falta. como todos perguntavam a mesma coisa ao atendente da banca, este se resignava a dizer, in the old Smith's alley yet has.
enquanto os ávidos leitores corriam a esmo pelos mais diferentes caminhos, tentei disfarçar minha ignorância quanto a localização do beco desse tal velho Smith, tomando um daqueles mapas que ficam dependurados. nem lembro quanto deixei como pagamento, meus olhos só se preocupavam em destrinchar o mapa.
foi em meio a errâncias oculares que descobri o que querem os leitores quando esperam nas cartas caminhos bem planejados para uma imagem minha - reflexo que olhar nenhum seria capaz de sustentar. querem mapas os leitores, certezas, verdades imutáveis e cartografias seguras: mapas em cartas. só posso oferecer o contrário: cartas em cartas não cartográficas. casi-mapas.
.: oberdan piantino
(6ª das cartas de edward para hopper, proposta literária
baseada no projeto epistolográfico do blog incorrespondências,
de marcio markendorf e nas correspondências de ana cristina césar,
imagem de edward hopper, "new york corner", 1913).
1.03.2009
carta dupla

cariño,
tenho um único, e primeiro, e desesperado, e fácil, e frágil pedido: devolva-me o valete de espadas, tenho as mãos desarmadas e isso dói. era apenas brincadeira, era apenas diversão, você não tinha porque me roubar um pedaço da única recordação que ainda guardo da infância. esse baralho francês me foi dado de herança, é o último da família. eu sei que foi idéia minha aprender um pouco desse jogo, mas como vencer qualquer partida se falta uma carta da metade que eu acreditava ainda completa?
o baralho de verso azul já havia se perdido a anos e com ele minha esperança de jogo. os reis, as damas e os valetes do baralho de verso vermelho seduziam-se na ausência de seus reflexos do outro lado do espelho, enquanto eu, via-me sem parceiros e oponentes, sem apostas e sem ganhos. então você chegou dizendo saber de um jogo em que minhas cartas se encaixam perfeitamente. de las vegas. de fortunas e prazeres que seriam meus. tudo para pegá-lo sobre a mesa enquanto eu me distraía com você a se olhar na parte côncava de uma colher de açúcar. experimentei o doce para sentir melhor o amargo.
para evitar um novo encontro, para evitar o desgaste de um resgate, tentei substituir a carta ausente por um pedaço de cartão com o desenho de um jovem empunhando a lâmina próxima ao rosto, mas o papel é outro e essa carta-cópia está sempre marcada pela diferença. sua estranheza em meio as outras é gritante e a trêmula figura a lápis se mostra patética como um manco a empurrar cadeiras.
não tenho vício em cartas. jogar não é minha obsessão, eu acho, eu espero. mesmo jogadores inexperientes, com eu e não você, sabem que há momento de embaralhar, momento de distribuir, momento de organizar em leque, momento de guardar algumas na manga e o fatídico momento da primeira jogada. a falta do meu valete de espadas me faz torcer. juego de dados. por um momento anterior a todos esses.
fica combinado assim: você leva a carta naquela mesma lanchonete onde tentou me ensinar a jogar. prometo não chamar a polícia. nós sentamos, disfarçamos o crime com duas xícaras de chá e por baixo da mesa suas mãos me trarão o seqüestrado. você não sairá perdendo, levo-lhe um ás.
acabo de passar a borracha para apagar de vez esse substituto fajuto, mas o que se revela sobre o papel de antigas dúvidas é um valente jovem a equilibrar um coração sobre a mão espalmada. seu corpo é languido como um menino, marcado de vida como um velho. meu baralho de cartas solitárias agora tem nos valetes de copas uma única dupla e não há jogo em que os dois se encaixem.
.: oberdan piantino
(5ª das cartas de edward para hopper, proposta literária
baseada no projeto epistolográfico do blog incorrespondências,
de marcio markendorf e nas correspondências de ana cristina césar,
imagem de edward hopper, "chop suey", 1929).
1.01.2009
carta que a água leva

cariño,
acordei náufrago em uma casa abarrotada de gente por todos os lados. não, não me senti sozinho. eu dormira sabendo que ao recolher os colchões, as toalhas e os pratos eu não encontraria neles nem marcas, nem cheiro, nem restos seus. sim, pareço um gerente de pousada e estou feliz com este emprego temporário. tem sido divertido procurar algo de você nas visitas: aqui o mesmo riso tímido acompanhado de um olhar cúmplice, ali o mesmo penteado em perfeito e parcial desequilíbrio, acolá o mesmo comentário mordaz bem sussurrado, por perto o mesmo leve roçar de braços e por vezes a mesma cumplicidade instantânea. a deriva nestas imagens atravessei o ano. não tentei remar, não fiz questão de chegar e nunca estive tão longe do desespero, da ansiedade ou do saudosismo, simplesmente aconteceu: ao atravessar o portão da garagem fui atingido por novos ventos do leste, aqueles ainda puros, sem cheiro de pólvora ou estampidos. perdón, não tive tempo para pensar em nós e isso devo a este oceano de humanidade que me cerca. não é também um oceano o que leva minha carta até você? e que outro motivo me levaria a escrever senão a distância?
assim que eu terminar a carta, e após esboçar outra idéia de gravura, irei levá-la para ser lançada ao mar. abrirei a porta, e após sentar sobre a soleira da entrada, que diferente de seus degraus ainda está fora d'água, buscarei entre as garrafas estacionadas uma com a aerodinâmica perfeita da saudade. a vontade de ser lido me faz pensar em carregá-la a nado até a praia de onde você me escreve no repouso de um lençol de areia, mas há o mito. minha irmã diz que enxerga em mim a fênix, por isso tenho medo de apagar as chamas que arrepiam minha pele se eu vier a mergulhar com muita sede em águas que temo serem profundas. carta que a água leva, carinho que a água traz.
.: oberdan piantino
(4ª das cartas de edward para hopper, proposta literária
baseada no projeto epistolográfico do blog incorrespondências,
de marcio markendorf e nas correspondências de ana cristina césar,
imagem de edward hopper, "rooms by the sea", 1951).
12.29.2008
entre cartas e coelhos

cariño,
temo pelo futuro dos coelhinhos, em sua fome de viver eles são presas fáceis. Assim percebi quase no final da viagem de ida. paramos em um lugar onde o devorar se multiplicava: enchia-se o carro do gás natural, direto da bomba do posto. os bonsais nutriam-se da mistura de areia, pedra e cerâmica bem disposta em seus pratos rasos. os viajantes devoravam toda a variedade que pode oferecer um buffet a quilo. e aguardavam as cobras, em seus viveiros, os porquinhos da índia que comiam sementes de girassol na gaiola. aquele lugar era como a vida moderna, um shopping center de beira de estrada. antes de qualquer obsessão por roedores, era natural querer saber se aqueles pequenos e singelos e fofinhos ratinhos da índia seriam o prato do dia da caninana ou da jibóia. a tratadora de cobras deu o bote, se pudesse daria coelhos para as cobras, para engordarem, estão magras.
senti medo e dúvida. queria me opor, esbravejar, quebrar a futura prisão de coelhos, mas isso seria me expor a grande tela que tudo vê, a tela onde minha história passa para o nem sempre distraído público. fiquei de lado para não me ver como superfície dissecada pela projeção de um filme de 35mm.
não é escolha dos coelhinhos provocarem fome em cobras, assim como não é escolha das taças de reveillon quebrarem-se no brinde, do pão com manteiga cair virado, das explosões provocarem admiração aos que podem olha-las de longe, e de suas cartas provocarem minhas cópias bem dobradas em envelope. a escolha está repartida entre o cortázar que os vomita e a casa que os recebe. hoje descobri que os coelhos e as cartas são mágicos, para não dizer como mary, em seu bom academismo, que eles são pontes para sobrevivência simbólica. ao envolvê-los nos braços, ao aproximá-los dos lábios, suas longas orelhas se eriçam para ouvir-me falar de coelhos, de cartas, de infinitos mundos. e as orelhas crescem sobre meus ombros. volutas de cariño. posso sentir seus chiados entre o moderato e o allegro, música de fundo para as histórias que narro.
.: oberdan piantino
(3ª das cartas de edward para hopper, proposta literária
baseada no projeto epistolográfico do blog incorrespondências,
de marcio markendorf e nas correspondências de ana cristina césar,
imagem de edward hopper, "new york movie", 1939).
12.23.2008
carta não branca

cariño,
continuo em minha imprevisível, e literariamente indefinível, tarefa de copiar sua letra em suas cartas. às vezes o segundo passo, para não dizer carta, é mais difícil que primeiro. eu sei, você já leu isso antes, mas não vindo de mim. ser reflexo, cópia, a outra parte gêmea, papagaio, já não me incomoda, é o que sou quando reconhecem você ao lerem-me em carta. entre caios e anas estão suas cartas, eles estão nelas e as tornam ainda mais belas.
hoje descobri que não me sinto bem quando paro para abastecer o tanque do carro, é estranhamente melhor que isso, é um momento que me obriga a escolher o que fazer com minha trajetória. mesmo nos gestos pequenos, sinto vertigem e algo de um corpo vivo. é nesse momento que penso em voltar e encontrar sua solidão sobre uma poltrona ou de frente a uma lanchonete. lá estaria você pronto a ler o livro de ana que repousa em seu colo. seria isso mesmo ou me lembrei de um quadro?
mas a parada no posto não é solitária. existem outras pessoas no banco de trás e com elas também se repete o jogo do trio. sou a terceira pessoa que ouve sem muito o que compartilhar, que para não ser lido repete o mesmo silêncio de quem dorme de olhos abertos. mas em meio a esse teatro de uma figura estática, já aprendi a criar desculpas para conversas a dois. sim, me agrada a idéia de publicar minha carta anterior. confio totalmente em sua intuição. Por favor, não entenda com isso que estou a lhe dar carta branca. tanto esta, quanto a anterior e as futuras cartas - por deus, o que me faz acreditar em próximas cartas senão uma frágil lâmina de desejo a balançar em um fio de palha? - são cartas rasuradas de engasgos do copista, manchadas de pequenos rascunhos caligráficos e ilustrativos. nada têm de branca.
já terminei meu curso de artes gráficas, por isso tomei a liberdade de fazer um esboço de gravura no canto da folha. nele você é o coelho que constrói a trilha de cenouras enquanto segura um cigarro nos lábios. eu sou o que se equilibra, de óculos tortos, em cima da caixa de fósforo. acho que diminui o ritmo. passos lentos, respiração profunda, não seria esta a confirmação de que estou realmente em férias? de que por mais que não tenha chego ao destino, minha trajetória é meu destino?
.: oberdan piantino
(2ª das cartas de edward para hopper, proposta literária
baseada no projeto epistolográfico do blog incorrespondências,
de marcio markendorf e nas correspondências de ana cristina césar,
imagem de edward hopper, "gas", 1940).
12.19.2008
carta sobre a areia

cariño,
queria poder dizer que você não é real, que não ouve minha voz em meio aos rascunhos que o correio insiste em aceitar como carta. queria fingir que não sou corpo lido no vazio magnético que une as palavras, mas sou invisível apenas para jogos. se escrevo, tenho a pele exposta sobre a folha. aqui é o lugar. agora é o momento. se não há escapatória, por que não me solto da plataforma? queria explicar cada palavra do ontem e do hoje, mas não é função primordial de todo escritor lançar-se ao risco ser mal compreendido? por que tantas perguntas se o que quero dizer é que sua leitura me desafia a pensar em gramática para fingir que não penso em semântica?
respiro para soltar um fio de relato. hoje o papel está mais branco do que de costume. cubo de solidões, cobertor de silêncios, casa vazia. a areia da praia se foi no banho, a visita no ônibus, o dinheiro no mercado, o papel e o lápis ficam. queria que você saísse da cartola para não mais entrar em sua toca. porém o coelho sou eu, não o do travesseiro, não o das fotografias. sou de Alice, o fugidio. se a doninha e o pavão não estavam por perto, você chegou em boa hora para me roubar o relógio de bolso.
um querer ser, não sendo, assim vejo essa paródia intimista. toda semelhança é admiração manifesta. toda frase, sopro necessário. cópia para um leitor que não posso fingir ser simulacro. estávamos a três. era com ela que você falava quando lia para mim. era entre você e ela que oscilava minha atenção. são timbres tão diferentes. se ela fala tão bem, você ouve com ainda mais destreza. eram esses ouvidos que ansiavam meus esboços guardados na manga. ela é tão mais forte do que eu, tão mais sincera. a teria entre as mãos se minha reação já não estive mapeada em signo?
queria entender cada expressão sua para não precisar disfarçar que essas mãos caipiras são esforçadas. espontaneidade? não em uma carta sem selo. definições? não em uma história de fraturas. droga, o não é meu escudo desmedido, o porquê, meu cacoete literário. não, não posso dizer não aos desafios, não quero. as histórias não são desculpas, as desejo muito. é a elas que procuro proteger com o corpo de texto.
.: oberdan piantino
(1ª das cartas de edward para hopper, proposta literária
baseada no projeto epistolográfico do blog incorrespondências,
de marcio markendorf e nas correspondências de ana cristina césar,
imagem de edward hopper, "spends the summer painting with Jo", 1923).
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