2.26.2009

carta à mademoiselle vida


ma chérie,
tentei esconder de você, tentei enganar a todos, mas não posso manter em segredo o que carrego estampado no rosto. sua intuição está correta, estou apaixonado como nunca antes, apaixonado pela vida. nome engraçado, não é? vida, é assim que todos a chamam.
era uma dessas noites abafadas quando a encontrei pela primeira vez. eu andava pela calçada em direção à lanchonete quando a vi, desde longe. suas costas chamavam mais atenção que os letreiros e insinuavam... foi fácil se perder naquelas curvas.
não sei como cheguei, quando dei por mim já estava sentando em uma dessas cadeiras que ficam em frente ao balcão, bem ao seu lado. le garçon, que sempre me atendia com poucas palavras, não sabia como conter o riso diante da falta de jeito com que eu procurava disfarçar minha vertigem. o chapéu devia estar torto e eu já não sabia o que me levara ao restaurante, nem era capaz de lembrar o nome do drink de todas as noites.
ele me fez o favor de servir qualquer coisa aonde pudesse enfiar os olhos. e era de lá, do fundo da xícara de café que eu procurava prever os movimentos dela para aproveitar uma chance de encará-la nos olhos. não tive coragem de olhá-la diretamente, não naquela noite. e foram muitas as noites em que essa mesma cena se repetiu.
eu mal saía do hotel e já me via sentado ao lado daquele mesmo perfume, daquele mesmo braço, daquela mesma presença sem rosto pela qual me encantara e cujos os lábios eram a promessa de êxtase escondida detrás do horizonte da minha timidez. eu já me apaixonei por muitas jovens, em muitos dos restaurantes que passei a freqüentar depois que teve início minha jornada dupla no jornal e na repartição, mas com a mademoiselle vida é diferente, por isso não lhe contei de início.
mas agora preciso da sua ajuda, algo aconteceu que me impede de encontrá-la e talvez mandando cartas para você, uma delas se extravie até ela... é desespero, eu sei, mas que outra chance se tem quando não se sabe o endereço, nem mesmo o sobrenome da pessoa amada?
não sei como explicar, mas da pouca memória que me orgulho, o que lembro é isso. tinha tomado o caminho oposto àquele que geralmente pego para ir à lanchonete. seguia em direção à estação de trem, porque não suportava mais ter de me esconder dela, ainda mais quando tão perto. chovia naquela noite e só posso ter certeza que, mesmo andando em linha reta para o mais longe possível, parei diante do balcão cujas ranhuras aprendi a contar de memória e olhos fechados. acho que dei a volta ao mundo.
sentei decidido a conquistá-la, mas o medo... com a ponta do dedo a toquei pela primeira, e última, vez. o impacto de seu toque foi súbito como um acidente de trânsito. nisso estava o prazer, porque era mínimo em um universo de contatos possíveis, mas incontestável. para ser definitiva, essa aproximação precisava de uma troca de olhares cúmplices. respirava alto e olhava seu rosto, tossia em seco e procurava seus olhos. ela não olhava para mim. talvez olhasse tudo de um reflexo que eu não alcançava, talvez previsse o futuro. é provável que fazia suas consultas no esmalte das unhas da mão esquerda. aquelas unhas vermelhas eram toda a sua pátria, e eu ali, tentando um pouso forçado em terras estrangeiras.
ainda sinto arrepios quando penso no que se sucedeu. ela me olhou com um leve virar de rosto e foi então que me não a vi mais. nunca mais vi vida. um calor percorreu meu corpo da ponta do dedo até o peito e ela se perdeu de vista. foi assim que ela entrou, para nunca mais sair, de minha memória, do meu destino e de ma vie. que essa obsessão seja incurável e que pelo menos uma de minhas cartas chegue até ela.

.: oberdan piantino
(16ª das cartas de edward para hopper, proposta literária
baseada no projeto epistolográfico do blog incorrespondências,
de marcio markendorf e nas correspondências de ana cristina césar,
imagem de edward hopper, "nighthawks", 1942).

Um comentário:

Margot disse...

Estava tentando explicar minha paixão. Finalmente um texto que fala por mim. =]