9.04.2009

honey on bread

cariño,
por ora traduzido: honey,


acordei com fome. o alarme mal pensava em tocar quando meu estômago se corroía contra sua própria superfície. tal como o papel branco que se fecha na falta de escrita, tal como o papel das inúmeras cartas que amassei com o corpo, minha fome produzia um som de envelope amassado. nunca tive coragem de estrangular uma carta entre os dedos. porém, dormindo sobre as folhas que tramava noite afora, eu as inutilizava com marcas biográficas, confesso. não me interessa esconder impressões digitais, apenas me arrependo de não saber afastar as cartas do peso de minhas arestas disfarçadas em ossos. queria voltar no tempo e não posso, queria trocar você por cartas, mas seria outro o corpo de texto, outras seriam as entrelinhas. seria esse jogo de amnésia mais uma mentira, ou dessa vez estaríamos dispostos a jogar a nosso favor? não, a linguagem nunca me importou de fato. acordei pensando em você porque tenho fome de escrita (aquela em que traço seu contorno, aquela na qual ensaio encontros, aquela que é minha meditação profana e ruidosa, aquela que penetra onde o idioma não alcança). Sonolento, eu mastigava sua imagem muda. ela me sorria sem nada dizer, me aquecia como palha sobre brasa quente. like honey on bread. largo sorriso com gosto de palavras, aquelas que ficam melhores quando experimentadas. palavra sobre a língua. palavra sobre a pele. palavra sobre o travesseiro. palavra nua sobre o acarpetado de suas costas.


.:oberdan piantino
x? das cartas de edward para hopper, proposta literária baseada no projeto epistolográfico do blog incorrespondências, de marcio markendorf. proposta em avaliação sobre como experimentar a efetividade e o registro da escrita. imagem de edward hopper, "summer-interior", 1909.

2 comentários:

marcio markendorf. disse...

às vezes acho que você consegue ir mais longe do que eu ou ana no projeto das cartas. a epistolografia passa a ser matéria visceral, de profunda tensão entre a bio e a fictio. das melhores imagens, seleciono esta:'minha fome produzia um som de envelope amassado'. great.

danpiantino disse...

nunca houve projeto para essas cartas, nem idéia de ponto de chegada. Se fui longe, foi porque optei por errar (no duplo sentido de cometer um erro e de caminhar sem rumo). Posso dizer, sem nada saber, que Ana não tinha um projeto de cartas, talvez você tenha sido o primeiro, quem vai saber?
. Não posso me arrepender por ter chamado-as (isso só depois da 4ª carta) de "carta-desafio". Porém me orgulho de dá-las uma nova definição: exercício de escrita e sedução de leitores. O desafio é achar um leitor que perceba que boa parte do que foi escrito é um compromisso de prática afetiva. Bio e Fictio não se tensionam mais, agora se ajudam. honey on bread se confirmou, digo que aconteceu dias depois de escrita. Mel para quem tem fome.