4.09.2009

carta de amor pode ser música


cariño,
me lanço no desespero de uma proximidade qualquer. me lanço na esquizofrenia de vestir a cada carta uma máscara. me lanço no risco de não ter meu afeto ouvido. me lanço... me lancei de tantos jeitos e agora me relanço, mergulho... ouço o som frenético da caligrafia sobre o papel, murmúrios da escrita misturada com desejo, ecos da solidão que sopra palavras em meus ouvidos. sua voz entre cartas, nossa voz na beleza dissonante de quem não idealiza e não realiza, ainda. agora não. espere. tenha paciência. o que ouço me dá esperanças mas um tanto mais de solidão. ainda não. e me reinvento para mais uma carta, me relanço, mergulho...

... refrão ...
Eu amo uma garota chamada mary hopper, mas mary não demonstra o mesmo. se me ama, eu não vejo. sim, pode ser coisa da minha mente, mas mary nunca me disse que tem outro alguém, nem que está insegura quanto ao que sente ou quer. bem sei que ela mudaria seu mundo por mim, vi isso em seu primeiro sorriso. mary mirava el mar y... mudaria tudo se soubesse meu nome, mas mary nunca me perguntou o nome. mary se protege me dando pistas com as quais sempre vacilo. não posso dizer que minha sede não ameace seu mundo, porque não sei querer bem sem querer muito. apenas sei que, se mary me olhasse, a faria me amar na velocidade de um mergulho...

beloved,
você olha as ondas e medita sobre coisas que eu adoraria saber. eu, entre o azul e o verde, tenho toda a intensidade de quem teve a coragem de saltar de cabeça e não sabia que nadava tão bem. quando volto para me secar ao sol, ainda respiro fundo a falta de ar e faço melodias mudas de quem não pode falar. de alguma forma digo, yo creo que usted me gusta. você não responde. torço para que as ondas digam tudo quando cantam venga, venga, venga para eso mar profundo, pero cubierto de pasión. mergulho...

ps.: mary, jesse, edward, a superfície que refrata por vezes queima a memória do escritor com a mesma sutileza com que atravessa o leitor com luvas de pelica. vacilo quando sinto em brasa o toque que queria ser inundação. não quero perder nenhum de vocês, mas sofro de esquecimento e um tanto de irrealidade. uma carta de amor pode ser música. mágica melodia do mergulho insistente.

.: oberdan piantino
florianópolis, 9 de abril de 2009
(14ª das cartas de edward para hopper, proposta literária
baseada no projeto epistolográfico do blog incorrespondências,
de marcio markendorf e nas correspondências de ana cristina césar,
imagem de hopper, "sea watches", 1963

2 comentários:

aaluah disse...

lindo!



escreves muito bem.

MCris disse...

Duas trilhas se abrem à minha frente:

* a partir de "Sea watches", em direção a "Breve Romance de Sonho", do Arthur Schnitzler.

* a partir da carta, seguindo a hesitação como conceito (e momento) fundamental, para D. Winnicott.

Duas trilhas (quem diria?) psicanalíticas...

Sinta-se beijado.