5.11.2009

carta em fragmentos


cariño,

deixo as palavras se desprenderem e agora neva. alguns crêem que é carvão o que cai do céu, muitos se aquecem e, eu, achando que posso assistir o espetáculo a distância, torço para que vejam boas imagens entre as chamas da lareira. faz nove semanas, quatro dias e onze horas desde que senti: o vento debridava minha pele.
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tenho corrido de uma biblioteca à outra oferecendo meu trabalhado de copista. vim em busca de uma direção e só fiz me espalhar. faz exatamente sete semanas e nove horas desde que se confirmou: minhas arestas eram lapidadas por olhos estranhos, aquela urbe de bibliófilos queria fazer de mim algo que não era.
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no escritório do segundo andar da casa que aluguei (você gostaria do sol que entra todo o fim de tarde), sentado em direção a janela, continuo a exercitar-me com as iluminuras do livro de você soube esconder em minha bagagem. por hora faltam as tintas sofisticadas, mas os contornos das letras continuam sendo meu forte. faz quatro semanas, seis dias e duas horas que o rastro de fuligem não deixava enganar: ou reagia, ou só me encontraria depois de abrir um pacote lacrado.
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me descubro arrogante por achar que poderia lutar contra minha história, ao invés de ter como aliado o que em mim vem se desenhando a tantos anos. enquanto me perdia na arrumação dos móveis, enquanto brigava comigo mesmo por não suportar um pouco de saudade, descobri que não tenho sabido ler seus quadros, nem seguir o improviso que me faria alisar seus cabelos em plena ventania. faz três semanas, um dia e catorze horas que descobri: as garras de um puma canadense não fariam tanto estrago quanto o ciclone que passou no oceano. só me culpo por não ter me dado uma semana de folga.
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passei o dia procurando uma forma de sustentar minha falta de luxo, por isso esqueci de ligar na hora marcada. tenho tido trabalho em juntar os pedaços que caem no quintal (o que não promete trazer nenhum retorno, mas é o mínimo que posso fazer). faz um dia e oito horas que, ao olhar o sol que se punha detrás da casa - um sol tão completo, tão claro e marcante que pouco importara a noite tenebrosa que o precedera - eu sai da intuição para me dar a liberdade de decidir o que fazer com o que sentia: não há dor, não há desespero, os flocos se dispersam porque não é saudável viver coberto de uma camada espelhada, onde cada um decide ver o que lhe falta.
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esse é o último trecho que escrevo antes de selar a carta. quando eu voltar, fará algum tempo desde a última vez que você me viu, teremos um estranhamento costumeiro com algumas mudanças que em mim poderá perceber, mas não duvide do que escolhi e do que poderei dizer: está na hora de rir no escuro.

con cariño,
Edward.

p.s.: hasta otro, creo no necesito más entregarme por trechos.


.: oberdan piantino
florianópolis, 11 de maio de 2009
(20ª das cartas de edward para hopper, proposta literária
baseada no projeto epistolográfico do blog incorrespondências,
de marcio markendorf e nas correspondências de ana cristina césar,
imagem de hopper, "pennsylvania coal town", 1947).

4 comentários:

Margot disse...

que bom!

Anônimo disse...

faz semanas...

danpiantino disse...

obrigado anônimo por me corrigir. gramática não é meu forte e depois que esse furo passou, os '0' funcionários da revisão foram demitidos da editora.

Margot disse...

Hahahahaha! Muito bom!