5.20.2009

a fantástica fome

eles caminhavam há dias. meses talvez. na pior das hipóteses, há anos. ninguém diria que aquele pequeno grupo - três homens e uma mulher - um dia saiu para almoçar e não parou mais de deambular pelo mundo. não que eles quisessem. era sábado. e para aquele sábado o diabo estabelecera um plano perverso no qual todos os restaurantes estariam fechados. de porta em porta, de fachadas de vidro a frentes pitorescas, nada encontravam. a mulher era que constatara primeiro o estranho acontecimento - dela escapava uma decepção doce nos olhos, compreensiva, dessas que levantam o corpo com o suspiro da esperança. até um tipo de hábito formou-se. vinha a outra esquina e nada. e outra e outra e nada. suspiro, ajeitar dos cabelos, decepção doce - 'quem sabe no próximo...'. mal sabiam que aquele sábado se tornaria um hábito que se tornaria rotina que se tornaria uma vida inteira. pois, afinal, no desenvolvimento do plano do diabo, todos os dias se pareceriam com o mesmo sábado. nenhum dos outros percebeu - exceto o mais alto de todos, certamente porque já escapara da morte uma vez - o quanto haviam penetrado no absurdo dos sábados que se repetiam. 'que fazer com a fome?', se perguntavam no espaço mais íntimo do corpo. mas não se perguntava como caminharam do sul do brasil até a costa da costa rica. o antropólogo do grupo pensava em símbolos, alegorias e organizações de sentido para a nova cultura tribal que se formava - a de três homens e uma mulher que erravam pelas cidades em busca de restaurantes abertos aos sábados. o professor, sim, aquele com cara de garoto maroto, fez um pequeno diário e registrava cada nome de estabelecimento fechado. disto tirava nomes de personagens, cenários e muitas fábulas que um dia ensinaria. ora, mas todo futuro já não era subjuntivo para os sábados que se repetiam? desculpe a redundância. então - a partir da possibilidade distante - os três homens se agarravam à segurança dos olhos da decepção doce, sentiam fome, olhavam as fachadas fechadas. e prosseguiam sem rumo, mas não tão infelizes nem tão famintos que não pudessem continuar.

2 comentários:

Sila Rosa disse...

Vi um livro. Um livro de errantes como todos nós. Um beijo na sua fome de escrever.

Margot disse...

adorei o texto.