6.04.2009

dois dias depois e muito tempo ainda.

os lábios estão vermelhos. que temperatura faz? cem graus, zero graus celsius? não dá para saber se é o vento ou o vapor que me queimam a pele. acho que estou desintegrando no ar. há quanto tempo não sei. segundos, talvez dias. estou errado, é no chão que estou. enterrado. neste lugar eu derreto. aqui mesmo, neste espaço, répteis rastejaram, a relva secou com a lava, os peixes nasceram. eu morri e estou num ataúde úmido de fundura. é o mar ou o frio agora? parece um deserto de sal à noite. talvez o lado de fora de um iglu. devo ser um pinguim. albino. não, é uma jaula, tenho certeza, tenho certeza de que é uma cela. o concreto da parede eu comi. já comi o concreto de mim. não quero mais a coisa boa. está um arrepio de doer. como a última caixa-preta cheia de conversa no fundo do oceano. azul. e ainda queima a flama, o trem fumacento, a cápsula espacial no pescoço. da janela vejo os cavalos trotando mil e quinhentas águas. tem, sim, sangue no som da ondas saindo da boca. é uma espuma, uma afta, um tentáculo. eu comi, comi o peixe-espada, comi o engolidor de adagas, o circo e o leão. onde estou? está frio, o lábio queima. não suporto a dobra que me desliza sutilmente a língua. dou uma patada no ar e a temperatura cai. que horas são? talvez quatro horas, talvez se eu voltar descubra quem sou eu. algo que queima, o ele. se é assim, assim não seria: um salto no desconhecido. os lábios estão vermelhos. que faz a temperatura? zero graus, cem graus. celso, escuta?

2 comentários:

Sila Rosa disse...

ai, parece que foi embora. suas palavras sempre mexem comigo de alguma maneira. e amanhã, talvez bem mais. um beijo

danpiantino disse...

A descrição da cena, do ensaio, dos infinitos acontecimentos dos quais surgem sua prosa lacerante não é colocada em cena. Talvez seja o ensaio da vida o que na vida poética não aparece, mas se desdobra com contornos dramáticos. Mas e o local da escrita? Me pergunto antes de perguntar para quem escreve.

A imagem do escritor que ensaia sua prosa na imobilidade, na distância do que não está acessível ao texto ajuda o leitor experiente que deseja apenas ler. Dos deslizamentos poéticos, a imagem que vou guardar no bolso é a de puro movimento: "da janela vejo os cavalos trotando mil e quinhentas águas".