2.01.2018

sonhos perturbados [4]


Estava em minha cidade natal, no casarão de uns vizinhos, cujo patriarca era um juiz. Eu havia sido convocado para um jantar de festividade. À mesa, todos falavam de política, menos eu, pois me sentia desconfortável  a família inteira era de direita. Não me arriscava a dizer nada, sabia que seria massacrado. Na verdade eu não era bem-vindo, sequer era um convidado. De repente, trouxeram o prato principal: o tronco de um corpo esquartejado, assado, mas de aparência ligeiramente crua. O patriarca disse: "Sirva-se, é um trabalhador". Horror e náusea. A família servida à francesa, engolia nacos de carne. Eu não conseguia me mover, não lograva gritar frente ao que acontecia. O patriarca, então, se agigantou e ameaçadoramente me ordenou que comesse. Sentindo-me ainda mais impotente, coloquei um pedaço na boca, porém, um segundo depois comecei a golfar. A carne era fibrosa demais, parecia feita de cerdas grossas, o naco fechava minha garganta. Não é um massacre ao qual você se acostuma. Um jato de bílis saiu em gorgolão da garganta. Recusei-me, mas ainda sem voz. A cena sofre fusão: estou sendo mantido em cárcere privado, o juiz, vestido em sua toga, manda em todo o país. Determina que eu esconda os restos do jantar antes que chegue Antônia, a empregada da casa. "Ela não pode saber da verdade", asseverou. Eu sabia que precisava resistir, mas tudo era imobilidade e silêncio. Na televisão passava o Jornal Nacional. Surgiram mais dois juízes, ambos vestidos de preto, como aves de mau agouro. Em seguida entrou Antônia, disposta a arrumar a casa do "seu bom senhor". Subitamente compreendi: o jantar servido na noite anterior era o filho dela. A máquina estatal devorando os trabalhadores. O filho de Antônia estava no forno, mas ela não sabia. Antônia acreditava na justiça. Bem disposta, ela acenou para mim e parou em frente à televisão para ver as notícias do jornal. "Que prendam o ladrão, não é mesmo?", foi o que ela me disse.

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