11.30.2017

sonhos perturbados [2]

Coisas fora do lugar novamente: eu estava dando aulas no ensino médio, porém os alunos eram os mesmos da faculdade. Havia um sinistramento da realidade naquela montagem espaço-tempo. A sala parecia ter quatro vezes o tamanho da original  no entanto, a dimensão do corredor do colégio era igual, habitado pela mesma inspetora de andar daqueles tempos. Era dia de prova e os alunos estavam exaltados, correndo de um lado a outro, como crianças de quinto ano. Pedi que se sentassem e guardassem os materiais de consulta. Ninguém deu ouvidos. Repeti o pedido, um pouco mais alto. Bolinhas de papel eram atiradas de um lado a outro do recinto. Não davam importância para minha presença. Tentei levantar a voz, mas secas, pesadas e ocas, as palavras caíram no chão, muito perto de mim. Comecei a conduzir alguns alunos próximos para as carteiras deles, pedi que guardassem os livros, mas eles sequer me olhavam. Era o microcosmo do caos. Continuavam a perversamente fingir que eu não figurava parado em pé, ali, em frente à classe. A sala, então, foi lentamente se contraindo, fechando-se sobre mim como se as paredes fossem uma compactadora de carros de ferro-velho. Procurei me proteger do esmagamento com com os braços cruzados sobre o corpo. De repente, eu estava em meu próprio quarto, na cama. Tinha sido um sonho? Levantei-me, tomei café, fui para faculdade   tudo conforme a rotina. Depois de subir os lances de escadas do segundo andar, vi minha sala de aula com a porta aberta, os alunos todos sentados e bem quietos. Prestavam muita atenção em alguém que falava com eles, cuja presença estava fora do meu campo de visão. Comecei a sentir palpitações, um medo disruptivo, uma falta de ar. Alguém falava com eles e era eu. Era eu e não era ao mesmo tempo. Um personagem duplo, um homem duplicado. O Outro me viu e, de longe, articulou com os lábios, sem som, uma palavra venenosa: "Impostor". Primeiro uma aluna voltou-se para trás, depois todos os alunos, em um gesto coral e estranho, viraram para olhar seriamente a lição que seu novo professor lhes dava.


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