9.28.2017

Sonhos perturbados


I

Noite passada, tive um pesadelo. Meu irmão e eu estávamos trabalhando na antiga lanchonete de meus pais. Era tarde da noite, sem precisão de horário, tudo muito escuro. Não havia ninguém nas mesas de plástico. O luminoso da Coca-cola zumbia baixinho. Afora isso, uma atmosfera abafada e uma sensação de perigo iminente estavam pairando pesadas. Lembrei, no sonho, de uma noite que assaltaram a mão armada o estabelecimento. Eu não estava na hora, nem meu irmão. E, naquele momento, era mais ou menos o mesmo horário do crime. Fiquei pensando naquilo com um tipo de ansiedade me tomando de assalto. Meus pais não estavam por perto, não sabia onde eles haviam ido. Então eu disse para meu irmão: "Vamos fechar, é muito tarde, é perigoso". Ele parecia perturbado com alguma coisa. Olhava para fora, para além dos portões do avarandado. Estava tão escuro que dava para cortar com uma faca o negrume. Tinha algo muito sinistro naquela composição. Iluminação low key, expressionista, horror. Lembrei mesmo foi do filme O nevoeiro, aquele adaptado do Stephen King. Olhando bem, tudo estava anacrônico,  tão fora do lugar. Meu irmão respondeu, seco: "Vamos fechar, senão eles vão vir". Eu não sabia quem eram eles, mas corremos os dois até as portas de enrolar, fechando-as com brutalidade. Em seguida ao travamento da fechadura, batidas muito fortes nas portas sulcavam o aço galvanizado. Parecia uma chuva vertical de granizo. Só que pelos guinchos que vinham de fora, pareciam bem ser coisas bem famintas.

II

Não conseguia dormir. Não por falta de sono. Eram eles outra vez. Os alienígenas estavam no meu quarto, cercando a minha cama, procurando, quem sabe, me atacar. No sonho, eu sabia que eles estavam fazendo uma roda de capoeira, só que estavam muito bêbados para se lembrarem dos movimentos. Então ficavam lá, gingando sem gingado, batendo sem ritmo as palmas das mãos. Obviamente não eram ameaçadores nem nada: eram pura perturbação. Um puta incômodo do qual você tem vontade de se livrar logo, como quando aquele zumbido de pernilongo acorda a gente de madrugada. A aparência dos pentelhos interplanetários lembrava muito a dos Sleestaks, as criaturas reptilianas d'O elo perdido (aka. Land of the lost), série dos anos 1980. De repente, meu irmão abria a porta do quarto, passava pelo meio dos aliens e me entregava um volume encadernado: O livro dos gatos. Daí ele cochichava no meu ouvido que o nome da obra era só um disfarce, algo que ele escrevera para eu me livrar daqueles visitantes. Ele dizia que há anos aquela raça estava na Terra - e explicava que no livro descrevia todos os dispositivos que eu poderia usar para afastá-los em definitivo. Meu irmão era tipo o menino do Acre, no sonho. Por algum mistério, os Sleestaks-like não estavam mais lá. Alguém tocou a campainha. Tratava-se de Erich von Däniken, autor de Eram os deuses astronautas. Ele me dizia: "Não deixe de olhar a pirâmide, não deixe de olhar". Depois desaparecia, sugado por um olho que tudo vê. 

.: marcio markendorf


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